Graça Pires (n.1946) editou o seu primeiro livro Poemas, em 1990, após ter sido distinguida em 1988 com o prémio "Revelação" da Associação Portuguesa de Escritores.
Depois do galardão, a poetisa figueirense já ultrapassou a dezena e meia de obras. Os prémios também se acumularam, chegando à beira de uma dezena: Prémio Sebastião da Gama, prémio de Poesia 25 de Abril, Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, prémio Ruy Belo, entre muitos outros.
Autora de uma linguagem tida como depurada, poetisa do mundo e do tempo, do sorriso, da memória e da infância, Graça Pires já percorreu as categorias que ensaiam a vida e nos prendem a vontade e o desejo de amar e estar no mundo. A sua poesia é, pois, acima de tudo uma leitura do mundo. No seu percurso poético, reclama o olhar, os dias, as palavras, as estrelas, a feminilidade, a natureza e a morte, para dar concerto ao universo que decidiu abraçar. São coordenadas da longa estrada que a sua escrita encetou, num registo de grande simplicidade que a autora soube manter no seu processo criativo.
Graça Pires disse, numa entrevista, que entende a poesia como um antídoto contra o desconcerto do mundo e afirma o poeta como aquele que, nos versos encontra a liberdade para se comprometer com os valores próprios de quem questiona a sociedade e resiste.
Motivada para tudo o que a rodeia, a poetisa utiliza os sentidos como a frequência que lhe permite reagir à folha em branco.
Autora de registos muito variados, a sua poesia pode ser encarada como diferentes peças musicais que melodicamente se enchem de ritmos e toadas diversas. Para quem não conhece a sua obra, é mister ler de início os seus Poemas, e passar pela solidão, o labirinto, a luz, a claridade, a solidão e o improviso de viver, porque as ruas onde caminha esta poetisa figueirense continuam cheias de gente.
Estão cheias de gente
as ruas por onde caminho e me demoro.
Procuro uma senda de lágrimas
em faces sombrias, para desviar
até ao lado mais esquivo do peito
o curso do rio onde flutua
a sombra do navio nocturno
que transporta a antiquíssima
inocência dos meus olhos.
Em Antígona passou por aqui (2021)
Era quase a manhã a sangrar nos pulsos.
Qualquer gesto seria inútil para entoar
todos os silêncios que enchem a noite.
Eu podia esperar à beira mar o amanhecer
ou os amigos a quem a errância dos mastros
rodeia a garganta.
Podia adormecer sob as águas onde se escondem
as quilhas seduzidas pela voragem.
Podia, eu sei, abraçar os navios
ou ser a asa e o voo das aves solitárias.
António Tavares, escritor
In: Poetas e prosadores figueirenses: (1850) - (1970). Figueira da Foz: Ed. de autor, Jun. 2026, p. 65-66
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