POEMAS ESCOLIDOS: 2012-2025
Poemas Escolhidos 2012-2025, de Graça Pires, é mais do que uma simples reunião antológica de poemas escritos ao longo de treze anos: trata-se da construção de uma verdadeira cartografia interior, de um território poético onde a memória, a paisagem, o corpo, o desejo, a infância, a linguagem e o tempo se entrelaçam numa tessitura verbal de rara intensidade lírica. Este livro permite ao leitor acompanhar a continuidade e a evolução de uma voz profundamente singular no panorama da poesia portuguesa contemporânea, uma voz que soube permanecer fiel às suas obsessões fundamentais sem nunca se repetir, alargando continuamente os seus campos simbólicos e emocionais.
Ao entrar neste universo poético, o leitor percebe imediatamente que a escrita de Graça Pires nasce de uma relação visceral com o mundo. Nada aqui é artificial ou meramente ornamental. Cada imagem parece brotar de uma experiência profundamente vivida e interiorizada. A poesia surge como necessidade vital: uma forma de interrogar o sentido da existência, de preservar a memória dos afectos e dos lugares, de resistir à erosão do tempo e à violência da realidade contemporânea. Há nesta escrita uma permanente tensão entre perda e permanência, entre destruição e desejo de redenção, entre sombra e claridade. Talvez por isso a imagem da luz atravesse obsessivamente toda a obra — uma luz que nunca é apenas física, mas espiritual, ética e existencial.
Desde Uma vara de medir o sol, percebe-se que a poeta constrói uma linguagem fundada numa profunda consciência da precariedade humana. O próprio título sugere essa tentativa quase impossível de medir o indizível, de encontrar uma ordem íntima para aquilo que escapa continuamente. O sol, símbolo ancestral da vida, da verdade e da revelação, torna-se aqui uma medida frágil da passagem do tempo e da vulnerabilidade do humano. Muitas vezes, os poemas parecem erguer-se a partir de um sentimento de ameaça: ameaça ecológica, histórica, emocional, espiritual. Os rios secam, as fontes desaparecem, os pássaros enlouquecem, os mares tornam-se lugares de destruição, os campos perdem fertilidade. A natureza, tão presente em toda a obra, nunca aparece como cenário idílico separado da condição humana; pelo contrário, ela reflecte continuamente as inquietações, os medos e as feridas do sujeito poético.
A terra ocupa um lugar central nesta poesia. Não apenas enquanto espaço físico ou paisagístico, mas enquanto lugar primordial da memória e da pertença. A poeta escreve a partir de uma geografia emocional profundamente marcada pelo mundo rural, pelas aldeias, pelas searas, pelos pomares, pelas eiras, pelas montanhas e pelas casas antigas. Há um saber ancestral inscrito nestes poemas: o saber dos ciclos agrícolas, das estações, dos ritmos lentos da natureza e do trabalho humano. As mãos que mondam a terra, que carregam água, que amassam o pão ou seguram as alfaias agrícolas aparecem repetidamente como símbolos de uma humanidade ligada ainda ao essencial. Quando a poeta evoca essas mãos, fá-lo com um respeito quase sagrado, como se nelas sobrevivesse uma dignidade ameaçada pelo esquecimento moderno.
Mas esta ligação à terra não corresponde a uma visão nostálgica ou ingénua do passado. A poesia de Graça Pires está profundamente consciente da violência da história e das fracturas do presente. Muitos poemas são atravessados por um sentimento de exílio interior, de desenraizamento, de perda irreparável. A modernidade aparece frequentemente associada à aceleração do tempo, à destruição dos vínculos comunitários, à devastação ecológica e ao empobrecimento espiritual. Há uma dor latente perante um mundo que perdeu a capacidade de escutar o silêncio, de respeitar os ritmos naturais e de reconhecer o valor simbólico das coisas simples.
Nesse sentido, esta poesia pode também ser lida como uma forma de resistência ética. O poema torna-se espaço de preservação da memória, lugar onde ainda sobrevivem as vozes dos mortos, os gestos antigos, as palavras essenciais e os afectos fundamentais. Em muitos momentos, Graça Pires escreve como quem tenta salvar do desaparecimento aquilo que ainda merece ser amado. A poesia surge então como acto de cuidado e de fidelidade: fidelidade à infância, aos pais, aos amigos, aos amantes, aos lugares habitados pela memória.
A infância, aliás, constitui um dos núcleos centrais de toda esta obra. Não é apenas recordação biográfica; é uma espécie de pátria espiritual perdida. A infância representa o tempo da inocência primordial, quando o mundo ainda possuía uma dimensão mágica e sagrada. Nos poemas, surgem frequentemente
imagens ligadas a esse universo inaugural: barcos de papel, pássaros, quintais, rios, árvores, ventos, brinquedos, campos verdes, fontes, noites de verão. Tudo parece envolto numa luz inicial, quase mítica. Contudo, essa infância é constantemente revisitadas a partir da consciência dolorosa do tempo. O sujeito poético sabe que não pode regressar verdadeiramente ao lugar perdido; pode apenas reconstruí-lo pela linguagem, pela memória e pelo sonho.
Há nesta escrita uma extraordinária capacidade de transformar elementos simples em símbolos de grande densidade emocional. O mar, por exemplo, é uma das imagens mais recorrentes e multifacetadas da obra. Surge como espaço de desejo, de errância, de memória, de liberdade, de sensualidade, mas também de perda, de ameaça e de morte. Em Espaço livre com barcos, o universo marítimo torna-se quase uma ontologia poética: existir é navegar, enfrentar tempestades, procurar portos impossíveis, sobreviver ao naufrágio interior. O mar representa simultaneamente o fascínio do infinito e o perigo do abismo.
Essa dimensão marítima aproxima a poesia de Graça Pires de uma longa tradição cultural portuguesa. Contudo, a autora evita qualquer retórica nacionalista ou épica. O mar não é aqui símbolo glorioso de conquistas históricas; é antes espaço íntimo e existencial, lugar onde se projectam as fragilidades humanas, os desejos e as ausências. Os barcos que atravessam estes poemas são frequentemente embarcações da memória, do desejo ou da solidão.
Outro aspecto fundamental desta obra é a relação intensa entre poesia e corpo. O corpo feminino surge como território de inscrição do desejo, da memória, do sofrimento e do tempo. Em muitos poemas, a sensualidade manifesta-se através de imagens ligadas à água, aos frutos, às flores, ao vento e ao fogo. O erotismo nunca é explícito ou vulgar; pelo contrário, desenvolve-se numa linguagem extremamente sensorial e simbólica, onde o desejo aparece integrado nos ritmos profundos da natureza. Há uma permanente fusão entre corpo e paisagem: o mar prolonga-se nos gestos, as ondas confundem-se com os movimentos do desejo, os frutos adquirem uma espessura erótica, os ventos parecem atravessar a pele.
Essa dimensão torna-se particularmente evidente em Fui quase todas as mulheres de Modigliani, talvez um dos momentos mais intensos da colectânea. Inspirando-se nas figuras femininas pintadas por Modigliani, Graça Pires cria uma galeria de mulheres simultaneamente concretas e simbólicas. Cada poema funciona como um retrato interior, onde se cruzam sensualidade, melancolia, memória, solidão e consciência do envelhecimento. As mulheres destes poemas habitam um espaço suspenso entre a luz e a sombra, entre o desejo e a perda, entre a nudez e o silêncio.
A pintura desempenha aqui um papel decisivo. A poesia de Graça Pires possui uma fortíssima dimensão visual. Os poemas parecem muitas vezes construídos como quadros: há atenção minuciosa às cores, às gradações da luz, aos gestos, às posições do corpo, às texturas e aos movimentos subtis da paisagem. O olhar é um elemento central nesta obra. Olhar significa conhecer, amar, recordar, sofrer, resistir. Os olhos surgem constantemente como lugares de revelação e de memória. É através deles que o mundo se torna sensível e simbólico.
A musicalidade da linguagem constitui outro traço essencial da escrita de Graça Pires. Os poemas desenvolvem-se em ritmos lentos, ondulantes, frequentemente próximos da oração, da litania ou do cântico. A repetição de certas palavras e estruturas sintácticas cria uma cadência hipnótica, quase ritualística. O vento, o mar, as aves, os rios, as sombras, a luz e o silêncio reaparecem continuamente, formando uma espécie de rede simbólica que atravessa toda a obra e lhe confere unidade profunda.
Importa também destacar a dimensão cultural e intertextual desta poesia. Graça Pires dialoga discretamente com múltiplas tradições literárias, artísticas e musicais. Surgem referências a Rilke, Neruda, Virgílio, Hemingway, Chopin, Mozart, Schubert e Modigliani, entre outros. Contudo, essas referências nunca funcionam como simples demonstração de erudição. Elas integram-se organicamente no tecido do poema, revelando uma consciência estética ampla e profundamente humanista.
Ao longo das quase trezentas páginas desta colectânea, o leitor percebe que a obra de Graça Pires se constrói em torno de grandes temas universais: o amor, a morte, o tempo, a memória, o desejo, a perda, a infância, a solidão, a natureza, a linguagem. No entanto, esses temas nunca aparecem abstractamente; incarnam-se sempre em imagens concretas, sensoriais e emocionais. É essa capacidade de unir intensidade lírica e densidade simbólica que torna esta poesia tão singular.
Poemas Escolhidos 2012-2025 afirma-se, assim, como uma obra de grande maturidade estética e humana. Graça Pires construiu ao longo dos anos uma linguagem própria, reconhecível e profundamente coerente. A sua poesia devolve-nos uma percepção mais lenta e mais profunda do mundo, lembrando-nos que ainda existem palavras capazes de resistir à brutalidade do tempo e à dispersão contemporânea. Ler estes poemas é entrar num espaço de escuta, de contemplação e de inquietação — um espaço onde a fragilidade humana se transforma, através da linguagem, numa forma rara de beleza e de verdade.
Maria João Cantinho
Na apresentaçao do livro, 30 Maio 2026
Conheci a Graça há cerca de 15
anos. O meu primeiro contacto foi com a sua palavra escrita, através do seu
blogue, “Ortografia do Olhar”.
Recordo-me ainda do impacto do
primeiro poema. Fui sacudida por um susto feliz, um espanto profundo, qual
advertência, um recordatório da minha capacidade de sentir o eco ampliado de um
poema.
Foi desde sempre este poder que
me cativou na sua poesia. Impossível não acolher no coração o vibrante ritmo da
sua ondulação, impossível não lhe abrir as artérias dos sentidos e deixá-la
fluir por tudo quanto em nós é vida.
Comecei desde logo a olhá-la como
uma “mãe poética”, queria ser como ela quando “crescesse”. A sua forma única de
sublimar a simplicidade, de desconstruir as emoções e com os destroços
reconstruir poemas repletos de significados profundos, não é algo que
encontremos com frequência. Na poesia de Graça Pires tudo é genuíno e puro, não
há filtros fúteis, nem buscas intelectualmente acessórias para nos distrair do
essencial. Tudo é poesia no seu estado mais depurado, sem interferências de
outra ambição que não a do “grito” poético. As aspas servem aqui para ressalvar
que o seu grito, às vezes tão doído, quase sempre inconformado, pontualmente
feliz, é, em tantos momentos, quase mudo, e, noutros, quase silêncio, de tão
fundo nos cai na alma.
O primeiro encontro com a pessoa
para lá da poeta trouxe-me uma lágrima de alegria. O abraço em que nos
encontramos é sempre terno, emocionado, desde sempre até hoje.
Sou sua editora desde 2014, desde
o seu maravilhoso livro Espaço livre com barcos, onde somos assoberbados com
esta avassaladora síntese biográfica:
Eu te baptizo em nome do mar,
disse minha mãe com barcos na
voz. E as ondas enlearam nas águas o meu nome, abrindo nas fendas do corpo um
impulso salgado que me brandiu o sangue. Sei agora que há âncoras afogadas nos
meus olhos: nítido eco de todas as demandas.
Aquando da apresentação do seu
livro O improviso de viver, referi-me a essa obra como uma “uma incursão pela
vida, pela sua intensidade, pelos seus meandros e enredos, pelas memórias,
pelas coisas do mundo, também, pelo que dói, às vezes, no mundo”.
Qual o som do mar me questiono
qual o som do mar tão saturado de
mortos?
Que sinos soarão por eles?
Quem fará a oração o sinal da
cruz o requiem?
Penso que esta consideração se
poderá aplicar a toda a obra desta autora tão inteira e íntegra, tão consciente
de si e da humanidade.
Há pessoas que apenas por
entrarem na nossa vida nos mudam, não por algo que façam, mas simplesmente pelo
que são. E não mudam o nosso comportamento, ou a nossa atitude perante o mundo,
ou a nossa visão das coisas. Mudam a forma da nossa alma, acrescentam linhas
aos seus contornos.
A Graça é uma dessas pessoas, e
por isso lhe serei eternamente grata, e por isso é indizível a minha admiração
por ela.
Virgínia do Carmo, Poeta e
Editora
In: Rostos inabaláveis, Lisboa:
Poética, 2015, p. 70-72


