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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Poemas escolhidos: 2012-2025

                                                               



Apresentação de Poemas Escolhidos (2012-2025), de Graça Pires (Lisboa: Poética Edições, 2026) | 17 de outubro de 2026, Unicepe (Porto)

Ocorreu-me, durante a leitura deste livro e ao preparar a sua apresentação, certo fragmento do poeta Casimiro de Brito: «O poema, em si, será sempre palavra umbilical que liga o mundo à sua memória e esta à utopia que a preserva»[i].

Destaco a expressão «palavra umbilical» e os termos «memória» e «utopia». Eles coincidem, de facto, na mundividência poética de Graça Pires, a qual, voltada pelo exercício do verbo para a relação íntima com o universo do qual parte, se encontra decididamente dirigida para o sensível, no duplo sentido percetivo e emotivo da palavra. Trata-se de um universo que se pretende comunicável poeticamente, não limitado à estática expressão pessoal de estados de espírito ou então à enumeração de objetos colecionados e mantidos em prateleiras narcísicas, mas antes dedicado ao gosto do regresso, redescoberta, espanto e meditação daquilo que é devido e próprio do humano. A ele é próprio e devido o propósito da busca, algo que lhe é tão intrínseco como o uso da palavra ou como a insatisfação diante de respostas provisórias ou imagens que sente como enigmáticas. A vida como mistério que abrange o presente, o futuro e o passado mantém-no em desassossego, ao ponto de o colocar sempre preparado para iniciar o percurso para outros lugares, reais ou imaginários. A utopia poderá definir a substância desses lugares, se pensados, por exemplo, na forma de oxímoros como «existências inexistentes», «significados insignificantes», «visibilidades invisíveis» ou «presenças ausentes»; na tensão desses termos, o percurso faz-se, preferencialmente, pelo caminho das palavras: leia-se o início de um dos fragmentos que integram uma das obras recolhidas nesta escolha, admirável na sua rigorosa coerência, Antígona Passou por Aqui: «Continuarei a definir o exíguo espaço de uma errância no culto da palavra. Habita-me a expectante mudez de um náufrago preso ao barco que o salva.» (p. 207).

O caminho prossegue pela palavra e para a palavra, na ação de a indagar no refúgio secreto do corpo silencioso. «Procuro o lugar onde começa o silêncio» é a frase que serve de limiar a algumas sequências de Antígona, litania pessoal de quem sabe ser a partir do corpo e da meditação dos seus movimentos o início da revelação interior da palavra poética. Como olhos cegos místicos preparados para receber a luz, a mudez revela-se essencial nesse processo de busca. O silêncio obriga o corpo à escuta dos passos da memória e a iluminar-se em cada encontro com o lugar preservado que, na formulação de Casimiro de Brito, corresponde ao da utopia: «Na lonjura de vozes antigas seguro a luz. Assombro-me da paisagem. Deixo que as palavras cedam inteiramente cedam ao indizível subterrâneo da paixão. Com um alarido preso à boca, leio os poetas das palavras claras e quebro no interior das pálpebras os versos mais cúmplices. Semelhante a um primitivo nómada, guardo comigo o fogo da poesia, para que nunca se extinga e me seja confissão e esconderijo.» (p. 207).

A comparação com o «primitivo nómada», noutro poema transfigurado em «navegante solitário» (p. 68), coloca-nos diante da inquietação como característica da caminhada, algo que diríamos, de facto, perseverante na poética de Graça Pires desde a publicação da sua primeira obra, em 1990. Poemas Escolhidos [2012-2025] constitui uma súmula apurada para o leitor das diferentes paisagens colhidas ao longo do percurso pessoal de outra poeta «de palavras claras». Esta é a segunda reunião do género, se considerarmos a publicação anterior de Poemas Escolhidos [1990-2011], em edição de autor, na qual incluiu poemas selecionados também de obras anteriores, embora sem a referência expressa das obras que lhe servem de fonte; neste livro, integram-se textos poéticos de onze obras publicadas desde 2012, várias na chancela da Poética (podemos afirmar que acompanharam o crescimento da editora, criada em 2013 pela poeta Virgínia do Carmo), cujos títulos denotam imagens significativas retidas durante a deambulação: Uma vara de medir o sol (2012), Caderno de significados (2013), Espaço livre com barcos (2014), Uma claridade que cega (2015), Fui quase todas as mulheres de Modigliani (2017), A solidão é como o vento (2020), Jogo sensual no chão do peito (2020), Antígona passou por aqui (2021), O improviso de viver (2023), Era madrugada em Lisboa: louvor a um dia com tantos dias dentro (2024), Talvez haja amoras maduras à entrada da noite (2025). Significativamente, o tempo, a memória, a feminilidade, a liberdade, formas de ligação umbilical ao mundo, surgem nestes livros como núcleos constantes de intenso fulgor.

Pensemos no tempo e na «vara de medir o sol», na inelutabilidade do movimento das horas na sombra do mundo, a sombra dos corpos a cobrir a terra. «Envelhecemos com uma vara / de medir o sol na linha do olhar. / Não entendemos os sinais inscritos / nas margens do abismo.» (p. 27), lemos num poema desta sequência inicial, anunciando-nos entorpecidos para a visão verdadeira do mundo que habitamos, sem a capacidade de reconhecermos os sinais de uma mais antiga relação com a terra. Essa privação é evocada na releitura genesíaca de uma idade poética primitiva pré-humana a qual, pressentida, motiva o sentimento nostálgico que a palavra poética procura dirimir pela sua evocação. Referimo-nos à composição da página 23: «Antes do homem havia a terra: / geografia mágica, sagrada / que, na luz e na treva, explodiu / de espanto e guardou, milenarmente, / os mistérios da vida e da morte. Depois da terra veio o homem. / E o homem tornou-se um morador incauto / e perdeu o paraíso onde agora os deuses, quando passam, desviam o olhar».

Mostra-se incontornável pensar em Hölderlin e no desaparecimento do sentido do sagrado no tempo humano da indigência, aguardando-se do poeta o cumprimento da missão de reaver o caminho perdido pela recuperação e elevação da linguagem poética. Noutros termos, prossegue o apelo à tarefa da religação umbilical com a memória utópica de uma idade de ouro poética que o descuido e desatenção humanos se obstinaram a destemperar. Julgo aqui pertinente convocar o conhecido texto de Ruy Belo incluído em Na Senda da Poesia, no qual se rende à palavra poética a primazia efetiva e temporal[ii], antes da sua devassa na palavra usada, esquecida daquilo que em tempos foi. Na poesia de Graça Pires, a possibilidade de reelevar a palavra à sua primitiva origem poética concretiza-se na demanda do reencontro com a memória da primeira imagem e da metáfora que a criou, ainda nos termos de Ruy Belo. Observamos, entre os poemas escolhidos, que o privilégio do passado como memória reside na tentativa de superação do tempo medido pela vara, a conseguir através da interrogação da palavra com o intuito de recuperar a substância vivida interiormente em épocas de felicidade. Leia-se a entrada «Nome» em Caderno de Significados (p. 42): «Interpelamos as palavras à procura de um nome para a casa onde moramos. Um nome que se ajuste inteiro à memória do olhar e do silêncio. Um nome tão secreto como as cantigas que as mães cantam baixinho enquanto embalam nos braços os filhos e a noite para não perderem o poder de repartir a sede.». Uma vez mais, a interpelação remete para uma época afastada, emocionalmente disposta para a felicidade, representada não apenas como núcleo de nostalgia mas, sobretudo, enquanto memória da condição livre do ser e da própria linguagem poética.

São múltiplos, nesse âmbito, os exemplos a conhecer ao longo deste livro; escolho um poema de Espaço Livre com Barcos, dedicado à irmã Teresa: «As ondas do mar salgado / andam correndo à vontade. / Levam barcas de desejo, / trazem barcas de saudade. / Cantiga de roda, / Tempo de criança: tão longe / e tão próximo do teu nome. / Tempo que já não volta. / Que tiveste de inventar para ser teu. / Como quando o odor dos limos / benzia as tuas mãos até à inocência / dos gestos mais discretos / e escondias, debaixo do travesseiro, / o teu olhar verde-mágoa.» (p. 58). A tradição popular combina-se com a música dos rituais da infância, tempo «que tiveste de inventar» – no sentido de encontrar, de reencontrar – «para ser teu». Já outros versos no limiar de outro poema do mesmo livro, «Espreito pelos dedos a memória / mais longínqua da infância / Procuro-a intensamente» (p. 81), colocam-nos perante idêntica ânsia. Do ponto de vista representacional, a criança é a menina com bibe, uma das mulheres de Modigliani, brincando com o vento e lembrando «os dias / em que nada quebrava a porcelana / dos lírios de intacta leveza» (p. 99). Essa criança-mulher relembra-nos a possibilidade de recuperação do ser essencial, autêntico do homem, que António Ramos Rosa defendeu como fundamento da criação poética[iii]. Leveza passada, magistralmente figurada nas abundantes referências à dança, sobretudo nos poemas escolhidos de Jogo sensual no chão do peito, numa clara tentativa de religação ao tempo dos deuses, numa época em que, de acordo com o mito, Astreia, deusa da justiça e da pureza, ainda não abandonara a humanidade corrupta e violenta ao seu destino. Leia-se um dos poemas mais notáveis dessa seleção: «E dancei descalça por todos os lugares / imitando os rituais aos deuses / das límpidas manhãs, / ou aos anjos das trevas, / na euforia do enlevo. // Cúmplice fui de bacantes e de bichos. / De árvores e de chuvas fui irmã. // Concebi-me a usar a máscara das tragédias gregas / até escutar vozes divinas. / Bailarina imperfeita e persistente / fiz do meu perfil a promessa inequívoca / de um cerimonial dos sentidos, / um salto mortal do meu próprio começo.» (p. 166).

No traço dionisíaco dos versos sobrepõe-se a limpidez e luminosidade apolíneas do sentido divino da justiça, apelo tão presente na poética de Graça Pires. Comentando a dança na obra Ninfas, o filósofo Giorgio Agamben interpreta-a precisamente como uma operação que se rege pela memória e pela energia, assim como pela articulação de imagens no tempo[iv]. De igual modo, no poema, as imagens são a máscara que, ocultando a identidade, permitem a escuta das vozes divinas. «Inventei a dança para me disfarçar», afirmava Sophia de Mello Breyner num poema de Coral (1950), «porque eu era semelhante às paisagens esperando / E ninguém me podia entender»[v]. Diria tratar-se de versos com profunda afinidade com as paisagens de Graça Pires, que, numa dicção própria, assinalava numa outra composição do mesmo livro: «Cheguei a escrever a minha vida. / Mas nada do que disse / podia demonstrar / como me transfigurava / na revelação de rituais / em demanda do eterno. // Evasivas se tornaram as palavras / que me reclamavam inteira no deleite / de um aceno primordial rodopiando / o fôlego divino que me fazia voar / por cima de mim mesma» (p. 175). No universo da dança, clamava Paul Valéry meditando sobre a pintura de Degas, não há lugar para o repouso e a imobilidade é algo imposto e forçado[vi].

Contra a sedimentação do mundo, o sentido sagrado da sua fundação divina reconstitui-se no canto da liberdade dos seres e da justiça, relembrando os seus heróis como Antígona ou momentos de claridade como os que encontramos na série de composições dedicadas à memória da Revolução de Abril, entre as quais a que se segue: «Estava escrito no muro branco / «A liberdade é minha». / Alguém riscou a frase e escreveu: «Nós somos a liberdade.» /A partir desse momento, / quem por ali passava e escrevia também: / Nós somos a liberdade». / No muro inteiro ficou impressa / aquela litania espontânea de palavras / que esvoaçavam no peito / como uma bandeira.» (p. 271). Na memória espontânea dessas palavras reside muito da utopia que consente a ligação umbilical do poeta a valores como a dignidade, atendendo assim à lição de Ramos Rosa da poesia como emancipação da espécie e como centro da liberdade. A dignidade humana compromete-o a não silenciar as dores do seu tempo, conforme nos é dado ler em poemas de Graça Pires como em «Leu a notícia no jornal» (p. 144) ou em «O poeta chorou» (p. 299), sobre os naufrágios de emigrantes no Mediterrâneo, com a comovente sequência apoiada na tragédia do menino sírio Aylan, em «O Mediterrâneo ficou mais transparente» (p. 133). A poeta compreende e expande o alcance de palavras como as de Simone Weil, para quem justiça, verdade e beleza são irmãs e aliadas. Citando-a, «Com três palavras tão belas não é preciso procurar outras»[vii].

São três palavras, três ideias que, em boa hora, o leitor encontrará sem grande dificuldade em Poemas Escolhidos. A palavra umbilical que referi no início também delas se faz, formando a utopia de maravilhamento que, no poema com este título do último livro (p. 297), Talvez haja amoras maduras à entrada da noite, se associa à mais sublime claridade. Parece-me ser esse ofício da luz, da «luz criadora de luz» das palavras a abrasar «a boca dos poetas», uma das leituras a colher na poesia de Graça Pires. Luz e fogo que a colocam na linhagem de poetas como Rimbaud, Herberto, Ramos Rosa, Fiama ou João Rui de Sousa, e de tantos outros que com ela têm vindo a dialogar na definição de uma arte poética tomada como outro tópico privilegiado em Poemas Escolhidos. Entre vários exemplos de reflexões metapoéticas, escolhi a entrada «Poema» de Caderno de Significados para concluir a minha intervenção:

«Não procures o poema, me disseste. Deixa que ele venha por sinuosos trilhos, ou pelo riso das crianças, ou pelo cantar dos pássaros, ou pelo nome rasurado dos mortos, ou pelo transparente caminho do coração.» (p. 43)

Deixemos que ele venha. Procuremos o lugar onde começa o silêncio. Obrigado, Graça Pires. Muito obrigado a todos.

 

Porto, 17 de outubro de 2026.

Francisco Saraiva Fino, Professor

 

 



[i] Brito, Casimiro de (2007) – Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, p. 71.

[ii] Belo, Ruy (2002) – Na Senda da Poesia, ed. Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Lisboa: Assírio & Alvim, p. 69.

[iii]Rosa, António Ramos (1986) – Poesia, Liberdade Livre. Lisboa: Ulmeiro, p. 34.

[iv] Agamben, Giorgio (2010) – Ninfas, trad. Antonio Gimeno Cuspinera. Valencia: Pre-Textos, p. 15.

[v] Andresen, Sophia de Mello Breyner (1992) – Obra Poética I. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 242. O poema intitula-se «Inventei».

[vi] Valéry, Paul (1965) – Degas Danse Dessin. Paris: Gallimard, p. 26.

[vii] Weil, Simone (2022) – A pessoa e o sagrado, trad. Rita Sousa Lopes. Lisboa: Guerra e Paz, p. 68.



quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A poesia de Graça Pires

 

À poeta Graça Pires,

                em admiração pela sua entrega à pureza da palavra.

               "somos feitos do mesmo tecido 
                de que são feitos os sonhos"

Com dedos débeis escrevo o teu nome
pelas ruas de Lisboa e do mundo,
onde o silêncio se esconde.

Sob a reverência ao sol,
de olhos movediços,
pergunto: basta o querer?

Respiro a tua arte.
Bebo os teus poemas, sílaba a sílaba,
na casa viva das palavras.
Tua voz nos toca no imprevisto
e repete:
"somos feitos de sonho, espírito e carne".

As águas da realidade que escuto
são o testemunho comum da aldeia global.

Tu és a poeta que transforma,
purifica a língua e entrega-a ao mundo.

                José Carlos Sant Anna, 
                                agosto/2026.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Graça Pires e o desconcerto do mundo



Graça Pires (n.1946) editou o seu primeiro livro Poemas, em 1990, após ter sido distinguida em 1988 com o prémio "Revelação" da Associação Portuguesa de Escritores.
Depois do galardão, a poetisa figueirense já ultrapassou a dezena e meia de obras. Os prémios também se acumularam, chegando à beira de uma dezena: Prémio Sebastião da Gama, prémio de Poesia 25 de Abril, Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, prémio Ruy Belo, entre muitos outros.
Autora de uma linguagem tida como depurada, poetisa do mundo e do tempo, do sorriso, da memória e da infância, Graça Pires já percorreu as categorias que ensaiam a vida e nos prendem a vontade e o desejo de amar e estar no mundo. A sua poesia é, pois, acima de tudo uma leitura do mundo. No seu percurso poético, reclama o olhar, os dias, as palavras, as estrelas, a feminilidade, a natureza e a morte, para dar concerto ao universo que decidiu abraçar. São coordenadas da longa estrada que a sua escrita encetou, num registo de grande simplicidade que a autora soube manter no seu processo criativo.
Graça Pires disse, numa entrevista, que entende a poesia como um antídoto contra o desconcerto do mundo e afirma o poeta como aquele que, nos versos encontra a liberdade para se comprometer com os valores próprios de quem questiona a sociedade e resiste.
Motivada para tudo o que a rodeia, a poetisa utiliza os sentidos como a frequência que lhe permite reagir à folha em branco.
Autora de registos muito variados, a sua poesia pode ser encarada como diferentes peças musicais que melodicamente se enchem de ritmos e toadas diversas. Para quem não conhece a sua obra, é mister ler de início os seus Poemas, e passar pela solidão, o labirinto, a luz, a claridade, a solidão e o improviso de viver, porque as ruas onde caminha esta poetisa figueirense continuam cheias de gente.

Estão cheias de gente
as ruas por onde caminho e me demoro.
Procuro uma senda de lágrimas
em faces sombrias, para desviar
até ao lado mais esquivo do peito
o curso do rio onde flutua
a sombra do navio nocturno
que transporta a antiquíssima
inocência dos meus olhos.
                    
Em Antígona passou por aqui (2021)


Era quase a manhã a sangrar nos pulsos.
Qualquer gesto seria inútil para entoar
todos os silêncios que enchem a noite.
Eu podia esperar à beira mar o amanhecer
ou os amigos a quem a errância dos mastros
rodeia a garganta.
Podia adormecer sob as águas onde se escondem
as quilhas seduzidas pela voragem.
Podia, eu sei, abraçar os navios
ou ser a asa e o voo das aves solitárias.

António Tavares, escritor
In: Poetas e prosadores figueirenses: (1850) - (1970). Figueira da Foz: Ed. de autor, Jun. 2026, p. 65-66

terça-feira, 2 de junho de 2026

POEMAS ESCOLHIDOS: 2012-2025

 

POEMAS ESCOLHIDOS: 2012-2025


Poemas Escolhidos 2012-2025, de Graça Pires, é mais do que uma simples reunião antológica de poemas escritos ao longo de treze anos: trata-se da construção de uma verdadeira cartografia interior, de um território poético onde a memória, a paisagem, o corpo, o desejo, a infância, a linguagem e o tempo se entrelaçam numa tessitura verbal de rara intensidade lírica. Este livro permite ao leitor acompanhar a continuidade e a evolução de uma voz profundamente singular no panorama da poesia portuguesa contemporânea, uma voz que soube permanecer fiel às suas obsessões fundamentais sem nunca se repetir, alargando continuamente os seus campos simbólicos e emocionais.
Ao entrar neste universo poético, o leitor percebe imediatamente que a escrita de Graça Pires nasce de uma relação visceral com o mundo. Nada aqui é artificial ou meramente ornamental. Cada imagem parece brotar de uma experiência profundamente vivida e interiorizada. A poesia surge como necessidade vital: uma forma de interrogar o sentido da existência, de preservar a memória dos afectos e dos lugares, de resistir à erosão do tempo e à violência da realidade contemporânea. Há nesta escrita uma permanente tensão entre perda e permanência, entre destruição e desejo de redenção, entre sombra e claridade. Talvez por isso a imagem da luz atravesse obsessivamente toda a obra — uma luz que nunca é apenas física, mas espiritual, ética e existencial.
Desde Uma vara de medir o sol, percebe-se que a poeta constrói uma linguagem fundada numa profunda consciência da precariedade humana. O próprio título sugere essa tentativa quase impossível de medir o indizível, de encontrar uma ordem íntima para aquilo que escapa continuamente. O sol, símbolo ancestral da vida, da verdade e da revelação, torna-se aqui uma
medida frágil da passagem do tempo e da vulnerabilidade do humano. Muitas vezes, os poemas parecem erguer-se a partir de um sentimento de ameaça: ameaça ecológica, histórica, emocional, espiritual. Os rios secam, as fontes desaparecem, os pássaros enlouquecem, os mares tornam-se lugares de destruição, os campos perdem fertilidade. A natureza, tão presente em toda a obra, nunca aparece como cenário idílico separado da condição humana; pelo contrário, ela reflecte continuamente as inquietações, os medos e as feridas do sujeito poético.
A terra ocupa um lugar central nesta poesia. Não apenas enquanto espaço físico ou paisagístico, mas enquanto lugar primordial da memória e da pertença. A poeta escreve a partir de uma geografia emocional profundamente marcada pelo mundo rural, pelas aldeias, pelas searas, pelos pomares, pelas eiras, pelas montanhas e pelas casas antigas. Há um saber ancestral inscrito nestes poemas: o saber dos ciclos agrícolas, das estações, dos ritmos lentos da natureza e do trabalho humano. As mãos que mondam a terra, que carregam água, que amassam o pão ou seguram as alfaias agrícolas aparecem repetidamente como símbolos de uma humanidade ligada ainda ao essencial. Quando a poeta evoca essas mãos, fá-lo com um respeito quase sagrado, como se nelas sobrevivesse uma dignidade ameaçada pelo esquecimento moderno.
Mas esta ligação à terra não corresponde a uma visão nostálgica ou ingénua do passado. A poesia de Graça Pires está profundamente consciente da violência da história e das fracturas do presente. Muitos poemas são atravessados por um sentimento de exílio interior, de desenraizamento, de perda irreparável. A modernidade aparece frequentemente associada à aceleração do tempo, à destruição dos vínculos comunitários, à devastação ecológica e ao empobrecimento espiritual. Há uma dor latente perante um mundo que perdeu a capacidade de escutar o silêncio, de respeitar os ritmos naturais e de reconhecer o valor simbólico das coisas simples.
Nesse sentido, esta poesia pode também ser lida como uma forma de resistência ética. O poema torna-se espaço de preservação da memória, lugar onde ainda sobrevivem as vozes dos mortos, os gestos antigos, as palavras essenciais e os afectos fundamentais. Em muitos momentos, Graça Pires escreve como quem tenta salvar do desaparecimento aquilo que ainda merece ser amado. A poesia surge então como acto de cuidado e de fidelidade: fidelidade à infância, aos pais, aos amigos, aos amantes, aos lugares habitados pela memória.
A infância, aliás, constitui um dos núcleos centrais de toda esta obra. Não é apenas recordação biográfica; é uma espécie de pátria espiritual perdida. A infância representa o tempo da inocência primordial, quando o mundo ainda possuía uma dimensão mágica e sagrada. Nos poemas, surgem frequentemente imagens ligadas a esse universo inaugural: barcos de papel, pássaros, quintais, rios, árvores, ventos, brinquedos, campos verdes, fontes, noites de verão. Tudo parece envolto numa luz inicial, quase mítica. Contudo, essa infância é constantemente revisitadas a partir da consciência dolorosa do tempo. O sujeito poético sabe que não pode regressar verdadeiramente ao lugar perdido; pode apenas reconstruí-lo pela linguagem, pela memória e pelo sonho.
Há nesta escrita uma extraordinária capacidade de transformar elementos simples em símbolos de grande densidade emocional. O mar, por exemplo, é uma das imagens mais recorrentes e multifacetadas da obra. Surge como espaço de desejo, de errância, de memória, de liberdade, de sensualidade, mas também de perda, de ameaça e de morte. Em Espaço livre com barcos, o universo marítimo torna-se quase uma ontologia poética: existir é navegar, enfrentar tempestades, procurar portos impossíveis, sobreviver ao naufrágio interior. O mar representa simultaneamente o fascínio do infinito e o perigo do abismo.
Essa dimensão marítima aproxima a poesia de Graça Pires de uma longa tradição cultural portuguesa. Contudo, a autora evita qualquer retórica nacionalista ou épica. O mar não é aqui símbolo glorioso de conquistas históricas; é antes espaço íntimo e existencial, lugar onde se projectam as fragilidades humanas, os desejos e as ausências. Os barcos que atravessam estes poemas são frequentemente embarcações da memória, do desejo ou da solidão.
Outro aspecto fundamental desta obra é a relação intensa entre poesia e corpo. O corpo feminino surge como território de inscrição do desejo, da memória, do sofrimento e do tempo. Em muitos poemas, a sensualidade manifesta-se através de imagens ligadas à água, aos frutos, às flores, ao vento e ao fogo. O erotismo nunca é explícito ou vulgar; pelo contrário, desenvolve-se numa linguagem extremamente sensorial e simbólica, onde o desejo aparece integrado nos ritmos profundos da natureza. Há uma permanente fusão entre corpo e paisagem: o mar prolonga-se nos gestos, as ondas confundem-se com os movimentos do desejo, os frutos adquirem uma espessura erótica, os ventos parecem atravessar a pele.
Essa dimensão torna-se particularmente evidente em Fui quase todas as mulheres de Modigliani, talvez um dos momentos mais intensos da colectânea. Inspirando-se nas figuras femininas pintadas por Modigliani, Graça Pires cria uma galeria de mulheres simultaneamente concretas e simbólicas. Cada poema funciona como um retrato interior, onde se cruzam sensualidade, melancolia, memória, solidão e consciência do envelhecimento. As mulheres destes poemas habitam um espaço suspenso entre a luz e a sombra, entre o desejo e a perda, entre a nudez e o silêncio.
A pintura desempenha aqui um papel decisivo. A poesia de Graça Pires possui uma fortíssima dimensão visual. Os poemas parecem muitas vezes construídos como quadros: há atenção minuciosa às cores, às gradações da luz, aos gestos, às posições do corpo, às texturas e aos movimentos subtis da paisagem. O olhar é um elemento central nesta obra. Olhar significa conhecer, amar, recordar, sofrer, resistir. Os olhos surgem constantemente como lugares de revelação e de memória. É através deles que o mundo se torna sensível e simbólico.
A musicalidade da linguagem constitui outro traço essencial da escrita de Graça Pires. Os poemas desenvolvem-se em ritmos lentos, ondulantes, frequentemente próximos da oração, da litania ou do cântico. A repetição de certas palavras e estruturas sintácticas cria uma cadência hipnótica, quase ritualística. O vento, o mar, as aves, os rios, as sombras, a luz e o silêncio reaparecem continuamente, formando uma espécie de rede simbólica que atravessa toda a obra e lhe confere unidade profunda.
Importa também destacar a dimensão cultural e intertextual desta poesia. Graça Pires dialoga discretamente com múltiplas tradições literárias, artísticas e musicais. Surgem referências a Rilke, Neruda, Virgílio, Hemingway, Chopin, Mozart, Schubert e Modigliani, entre outros. Contudo, essas referências nunca funcionam como simples demonstração de erudição. Elas integram-se organicamente no tecido do poema, revelando uma consciência estética ampla e profundamente humanista.
Ao longo das quase trezentas páginas desta colectânea, o leitor percebe que a obra de Graça Pires se constrói em torno de grandes temas universais: o amor, a morte, o tempo, a memória, o desejo, a perda, a infância, a solidão, a natureza, a linguagem. No entanto, esses temas nunca aparecem abstractamente; incarnam-se sempre em imagens concretas, sensoriais e emocionais. É essa capacidade de unir intensidade lírica e densidade simbólica que torna esta poesia tão singular.
Poemas Escolhidos 2012-2025 afirma-se, assim, como uma obra de grande maturidade estética e humana. Graça Pires construiu ao longo dos anos uma linguagem própria, reconhecível e profundamente coerente. A sua poesia devolve-nos uma percepção mais lenta e mais profunda do mundo, lembrando-nos que ainda existem palavras capazes de resistir à brutalidade do tempo e à dispersão contemporânea. Ler estes poemas é entrar num espaço de escuta, de contemplação e de inquietação — um espaço onde a fragilidade humana se transforma, através da linguagem, numa forma rara de beleza e de verdade.

Maria João Cantinho, escritora

Na apresentação do livro, 30 Maio 2026




segunda-feira, 7 de abril de 2025

TALVEZ HAJA AMORAS MADURAS À ENTRADA DA NOITE

 



Talvez haja amoras maduras à entrada da noite. Lisboa: Poética, 2025

SILÊNCIOS QUE GUARDAM GRITOS,

RIOS QUE MUTUAMENTE SE BEBEM

 

Ler palavras novas de Graça Pires é "entrar no labirinto das palavras", pé ante pé, decifrar os sinais e pistas - praia, fogo, água, luz,…- e avançar sem saber se estamos a seguir os passos da Autora ou outros passos que nos levam ao mesmo destino por outro caminho. Quem leu a poesia anterior de Graça Pires, decerto conhece a sensação. Não vale a pena tentar descobrir esse caminho íntimo escondido - o mais provável é nunca descobrir nos versos de Graça Pires, a "dor que deveras sente".

"A noite recupera na sombra olhares crentes / no regozijo quase absurdo / das manhãs luminosas" - lemos no poema inaugural deste livro. A noite pertence aos Poetas, é nela que antecipam a luz. A noite, com a sua escuridão, destaca as luzes quase sempre ofuscadas e indistintas na claridade do dia. A quietude da noite é um disfarce, um "celeiro dos silêncios". Os silêncios são guardas, vigilantes, das colheitas de vozes e gritos. É por isso que Graça Pires fala da "espiritual osmose / entre a poesia e o silêncio". É também na noite que se esbatem as divisões do tempo, transformando o passado, o instante e o futuro em contemporâneos. O "fascínio da inocência / desoladamente perdida" não é só recordação, saudade ou nostalgia - é desejo e horizonte de chegada. E se a noite consegue esbater as divisões do tempo, o amor consegue superar o próprio tempo. O "barco de papel" que circum-navegou os corpos dos amantes (que bela imagem!) pode ter sido cerceado pela "última maré-viva", mas os amantes ainda se amam "obsessivamente". É por isso que a noite pertence a criaturas luminosas: os amantes e os poetas.

A noite que Graça Pires nos abre neste livro não é um mundo de fantasia. É um labirinto com  avisos, janelas sobre a realidade. Por exemplo, quando compara a delicadeza dos crisântemos à "cambraia bordada / por mulheres caladas / que carregam no sangue / misturas insubmissas / de vida e de morte". Noutras janelas, são as mães com " vozes de deméter clamando sem consolo", capazes de movimentar a natureza para resgatar os filhos, como na mitologia. Ou ainda a mãe de "mãos inteiras" que "sempre soube receber / através do tanto que deu". A condição da mulher - feita de amor, delicadeza, sofrimento e coragem - é a lente que permite ver a realidade do mundo. A mulher mãe, amante, pensamento, natureza, está omnipresente e vigilante no caminho por onde a poesia de Graça Pires nos leva. Tal como a noite, a mulher é um celeiro de vozes, sejam elas a da mãe que "de fome / já tinha morrido duas vezes / com os filhos" e que "gritava sem cessar o nome de cada um", ou a mulher "naufragada no centro de mim / grito silenciosamente". Silenciosos ou não, são os clamores da mulher que revelam a fealdade do mundo. Em livros anteriores, já os leitores tinham encontrado a forma - suave, mas explícita e firme - como a poesia de Graça Pires assume crítica social. A fealdade do mundo não é só uma apreciação estética. A "chave" pode estar nestes versos: "Observo no pranto / a origem das águas / e por elas regresso ao rio que penetra em delírio / no mar da infância infinita". É de facto nesta "infância infinita" que a fealdade e a injustiça são sinónimas. Só uma criança é capaz de tanta lucidez.

Existe, por conseguinte, um sentido para a caminhada no labirinto da noite, para além da quietude dos celeiros e longe do conformismo. O labirinto não é mero entretenimento. O caminho tem um destino: "Sou marinheiro. / Tenho remos nos pés / um soluço a navegar no peito / e um barco atracado na lembrança. / De muito longe me convocam".

 Graça Pires procura - e encontra! - na infância a lucidez de que o mundo e o futuro necessitam. É por isso que o poema "Meninos com gula" se presta a ser um dos poemas preferidos do leitor. O entusiasmo dos jovens com o amor é comparado com a gula dos meninos à procura de amoras. Anos passados, depois de toda uma vida, é ainda o entusiasmo que persiste, sem cair na condescendência do olhar crítico sobre o passado: "Vamos de novo amor / antes que sequem no coração / as amoras da juventude". O amor é simples, basta amar. Não fazemos ideia do caminho que a poetisa percorreu, e ela alerta que não vale a pena seguir as suas pegadas, porque também ela chegou a andar perdida: "Perdi-me na geografia / dos lugares onde era meu / o barro dos sonhos". Ela não quer que a sigam e pouco ou nada aponta para si própria, preferindo apontar para o que está à volta.  O regresso às "amoras da juventude" soa como um destino apontado ao leitor. As amoras estavam lá, maduras, à entrada do labirinto noturno. Bastava vê-las, e não as deixar secar. Às vezes, só se consegue avançar se houver coragem de regressar ao ponto de partida. É lá que estão as amoras.

Neste seu livro-labirinto, Graça Pires mostra, uma vez mais, como são ténues as fronteiras entre o assuntos do coração, do mundo e da poesia. É suposto deixar aqui a informação, ou pelo menos um vislumbre, do que se nele pode encontrar. A resposta mais honesta que me ocorre depois de o ler é: depende do que nele se quer procurar. A lucidez da infância infinita. As amoras da juventude. Os "rios que mutuamente se bebem", na poderosa imagem do poema magnífico que exprime o amor intemporal no expoente máximo da entrega:

"Nas margens do teu corpo

envolvo as margens do meu corpo.

É puro o rio

em que ousamos navegar.

Se disseres o meu nome

hei-de encostar o ombro

ao som da tua voz

para ludibriar a sede.

Seremos como rios

que mutuamente se bebem."

 

A mesma imagem, páginas adiante, no poema "É sempre a sede":

 

"É sempre esta sede sem fim

a demandar a nascente perfeita

onde as águas se bebem

demoradamente".

 

Sim, "talvez haja amoras maduras à entrada da noite". À espera de serem colhidas. A tempo. À entrada da noite.

 

Carlos Campos, advogado e escritor

Na apresentação do livro, 6 de abril de 2025


                     

Após "duas" leituras apaixonadas do novo Livro de Poesia de Graça Pires - «TALVEZ HAJA AMORAS MADURAS À ENTRADA DA NOITE»
retrato por aqui, um pouco dos momentos vividos na sua apresentação.

Os crisântemos

Em voz baixa
digo que os crisântemos
crescem no batimento
inquieto do coração
E são delicados
como a cambraia bordada
por mulheres caladas
que carregam no sangue
misturas insubmissas de vida e de morte

(pág. 10)

Com a apresentação de Carlos Campos , um poeta que também muito estimo, o presente Livro da editora POÉTICA GRUPO EDITORIAL, toca-nos fundo pelo seu estilo bem apelativo de leitura, num traço ímpar como o poema presente.
Da minha parte, permitam-me via gentileza fotográfica da amiga que também muito estimo, pela excelente obra já editada, Lília Tavares foi uma honra imensa "dizer" um poema da presente "obra poética"!
Amiga Graça Pires ... não pares, por favor!!!!!!!!!!!!



José Luís Outono, escritor
E-mail 15 abril 2025



                              

Minha querida, recebi anteontem seu último  e maravilhoso livro. Não é novidade encontrar a beleza na suas obras, e isso se sucede indefinidamente, pois, a cada obra sua publicada, reafirmo o seu lugar no degrau mais alto do pódio da poesia.
Ao iniciar a leitura, pensei em anotar alguns títulos dos poemas que inicialmente mais me despertaram a atenção numa primeira leitura, e comecei: "Os crisântemos", "Em cada despedida", "De muito longe me convocam", "A seiva original"... Vi que a lista estava se estendendo, e também aumentando após uma segunda e uma terceira leituras, e percebi que copiar o índice do livro seria mais cômodo, tal a riqueza do que fui encontrando.
Os poemas são um pouco mais breves do que outros seus de outras épocas, e plenos de significados e emoções.
Questões existenciais, como em “Chronos”, o passar do tempo, em ‘A sedução do tempo” e ‘A adolescência”, o fazer poético, tal como em “A revelação do poema”, e reminiscências compõem esse universo, e quando o olhar se desvia para fora, surgem obras primas como "Abraçados", "O Poeta Chorou" e "Ameaça".
Versos como “Cobre-me de linho antigo/ se o ímpeto do sol incide sobre o mar.”, "...delicados/ como a cambraia bordada...”, “Denúncia rigorosa do tempo/ nos seixos polidos”, “Farto será o celeiro dos silêncios” “...antes que sequem no coração/ as amoras da juventude.”, “...a curva do tempo/ em sua cruel celeridade./ ... um barco atracado na lembrança.”, “Há no meu regaço/ aves enlouquecidas”, “...a marca de meus pés/ na velhice dos caminhos”, "Deixo que a dureza das pedras/ me pise os pés...”, “A luz de outubro inteira no olhar”, “E o coração já tão náufrago na memória”, “Há silêncios abandonados/ na memória do esquecimento.” e “...o vazio é o único trilho/ que liga o céu e a terra.” testemunham a riqueza do seu olhar para a vida e para o mundo.
Não há como agradecer você pelo envio do livro, e, mais do que isso, por fazer parte da minha vida, e trazer-me tanto alento pela beleza do que escreve. A literatura, na minha vida às vezes tão à deriva, é um alento para a alma, e você, dentro disso, tem o lugar mais especial.

José d'Ângelo, escritor
E-mail 10 Maio 2025




“Talvez haja amoras maduras à entrada da noite”

O novo livro de Graça Pires: entre o feminino, a natureza e a disciplina poética


Aprende-se a gostar da poesia de Graça Pires. Pelo menos, foi assim comigo. Tem um sabor clássico, mas permanece fresco, incorporando a claridade de Sophia, o rigor de Luíza Neto Jorge e um travo do estilo trágico-romântico que recorda a intensidade melancólica de Sylvia Plath. Ao longo da sua longa trajetória literária, Graça Pires explorou várias formas de expressão — como se nota ao folhear a sua coletânea “Poemas escolhidos 1990-2011” (2012) —, mas manteve sempre uma coerência imagética: o eterno feminino e a natureza servindo de mote ou destino.  Ambas as inspirações reconhecem-se nestes dois excertos:

“E são delicados / como cambraia bordada / por mulheres caladas / que carregam no sangue / misturas insubmissas / de vida e de morte.”

“Diz-me a brevidade / das fogueiras acesas / sobre a areia húmida / na hora em que a febre e o sal / alucinam o vento.”


Nos primeiros poemas deste novo livro sente-se um arrumar da casa, a preparação para um novo ciclo. A sua poesia não vive num aquário fechado, mas num mar aberto, sensível às marés e às tempestades — sejam sociais ou íntimas — que todo barco enfrenta. É visível, a partir destas páginas, uma disciplina implacável, quase pedagógica, nesta comunidade de poetas — às vezes belicosa, como todas as irmandades desde Abel e Caim — que se reconhece no ofício da palavra.

“De mãos dadas/ como se fôssemos/ meninos com gula/ íamos pelos taludes/ à procura de amoras//(...) Vamos de novo amor/ antes que sequem no coração/ as amoras da juventude.” 

Nos versos de Graça Pires, a paixão amadureceu e transformou-se em amor, e o que antes era contingente tende agora para o absoluto:

“A noite recupera na sombra olhares crentes no regozijo quase absurdo das manhãs luminosas. // Encontro absoluto com a luz em delírio no horizonte.”

Como lembra Adriano Moreira, “as coisas acabam antes de acabarem”, e Oscar Wilde acrescenta: “Se a moda não fosse horrível, não mudava de seis em seis meses”. Assim, Graça Pires afirmou-se num estilo próprio, conquistando leitores sem truques modistas ou happenings efémeros. Resistiu aos solavancos dos estilos e manteve uma voz fiel a si mesma, que continua a amadurecer.

Por isso, longa vida à sua poesia — porque, como ela escreve:

“Antes das grandes sedes/ já um deserto ameaçava/ nossas bocas/ ávidas do frescor dos frutos.// Meu amor/ talvez haja amoras maduras à entrada da noite”.


 "Talvez haja amoras maduras à entrada da noite" (65 páginas, ano 2025)
Graça Pires  
Poética Edições


Beijos,
Luís Palma Gomes, professor e poeta
E-mail 19 Maio, 2025


                                        

Talvez haja amoras maduras à entrada da noite

Depois de "Era madrugada em Lisboa: louvor a um dia com tantos dias dentro" de 2024, Graça Pires (n. 1946) regressa a uma Editora (Poética Edições) na qual publica regularmente desde 2014 com "Espaço livre com barcos". O título deste volume com 55 poemas, é retirado dos versos da página 61: "Meu amor talvez haja amoras maduras à entrada da noite". Pelo meio hã uma viagem na qual a autora fala do mundo ("Diante do mar mediterrânico o poeta chorou") mas também fala de si: "De mãos dadas/ como se fôssemos/ meninos com gula/ vamos pelos taludes/ à procura de amoras". Entre o precário da Vida /"Reconheço o sentido/de tudo o que ficou no olhar/ em cada despedida") e o inevitável da Morte ("Não me perguntem/ se na vertente da noite/ há mães que se deitam/ no berço dos filhos/ à espera que regressem/ de prematuras mortes") só o Amor pode responder: "Não era ave nem asa nem voo/ Era mulher/ E os deuses cobiçaram-lhe o corpo/ Enquanto os olhos de Orfeu/ procuravam os olhos dela". Um livro de poemas a não perder.

José do Carmo Francisco, poeta
"Correio do Ribatejo", 25 julho 2025