Espaço livre com barcos. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2014
A poeta Graça Pires dispensa apresentações, tendo já publicado 15 obras
de poesia, se não estou em erro. A maior parte delas obtiveram Prémios que
fazem jus à sua grande qualidade, ainda que o jornalismo cultural ande alheio a
esta obra. E, mais uma vez, a autora me colocou este difícil desafio, de lhe
apresentar o seu novo livro. A minha afinidade com o seu universo poético tem
sido, desde o início, a minha porta de entrada para a sua poética, da qual me
sinto próxima.
Existem, no corpo poético da sua obra, núcleos temáticos que se mantêm e
são transversais à sua obra, mais uma vez claramente assumidos neste livro: o
mar, os barcos, a viagem e o nomadismo.
Nada é ao acaso na poesia de Graça Pires, essa intencionalidade quase
programática é o que chama, desde logo, a atenção. Mesmo que ela seja
inconsciente para a autora (se é que o é), para um leitor mais atento e a uma
análise mais hermenêutica, os temas encadeiam-se e os poemas têm uma precisão
que lhes desenha o percurso e a direcção. Neste livro, de 46 páginas, não
existe um único poema com título, o que me leva a pensar que todos eles fazem
parte de um mesmo ciclo, como se de uma viagem interior se tratasse. E o
primeiro poema “Eu te baptizo em nome do mar”, como se de um mantra se
tratasse. “Eu te baptizo em nome do mar,
/disse a minha mãe com barcos na voz. /E as ondas enlearam nas águas o meu
nome (…)”. Como um chamamento ou um ritmo hipnótico, esse “baptismo” de mar
arrasta o sujeito poético para uma viagem interior, simbolizada no quarto verso,
onde se diz: “abrindo nas fendas do corpo um impulso/salgado que me brandiu o
sangue”. Sintoma de uma abertura (fendas
do corpo) que interrompe a continuidade do tempo, para dar lugar à iniciática
viagem, este é o tempo mítico, aquele que irrompe, mas também o tempo onírico,
poético. Eis a marca transgressora de um real que cede aos limites espaciais,
criando a distorção propícia à criação poética. E ainda no mesmo poema a
reclamação do olhar como o “nítido eco de todas as demandas”. Porque o olhar que
se encontra aqui é simbólico, místico, situando-se no limiar do indizível, é o
olhar interior e que constitui o apelo de “todas as demandas”. Não observar
este alento íntimo na poesia de Graça Pires deixa-nos de fora do seu jogo
poético, limita-nos o acesso à linguagem e ao poder imagético da sua poesia.
E é no segundo poema que a autora nos fala de um “destino marítimo” que
todos temos, como uma espécie de selo íntimo e inadiável, do mesmo tecido
espesso que é o da memória, na sua imbrincada rede de associações, onde se
cruza o real e o onírico, de acordo com uma secreta (e indefinível) ordem. E a
partir desse momento, todo o poema se transforma numa festa sensorial, onde o
corpo é emblema e celebração: “Por isso gosto de seguir a linha/ verde da costa
com a face exposta/ao hálito da maresia e os pulsos/cravejados de conchas”.
Esta sobreposição entre os pulsos, frágil lugar onde se inscreve a força, a
vida e o sangue humanos, e o “cravejamento de conchas” (p. 8), fundindo-se o
humano com o fóssil, dá lugar a uma imagem de fusão entre dois universos,
mantendo-se o sujeito poético nesse limbo entre humano e mineral, convocando
assim a energia dos elementos e conferindo uma carga panteísta ao poema. Todos
os poemas são, neste livro, breves, revelando uma organicidade na sua
construção, em torno dessas imagens marítimas ou antigos ecos de uma memória
fragmentada: “Encostado à amurada de um navio/recordas viagens inacabadas. /Vêm
de muito longe todas as memórias. /Eras Ismael e amavas a baleia branca.”. Essa
outra dimensão da poesia de Graça Pires, a da meta-poesia, ressalta fortemente,
estruturando uma dimensão complexa e quase surreal ao poema, recorrendo ao jogo
intertextual e onde ecoam as vozes de Melville, do seu romance “Moby Dick”,
evocando a terrível luta de Ahab com a baleia branca e, ainda, a obscuridade
desse mar de Conrad e dos seus romances mais metafísicos, exprimindo a luta do
bem com o mal. Ismael, o narrador do mítico romance Moby Dick, é aquele que
sofre o fascínio (e também o terror) de assistir à luta entre o capitão e a
baleia. Mas, sendo espectador, Ismael é atraído pelo poder devastador e
sobrenatural da baleia branca, símbolo do mal absoluto, incompreensível.
Profundamente humano, Ismael é aquele que “tinha uma dor derramada no peito.” E
essa é a dor, a angústia da inquietação febril que possui o explorador dos
abismos da alma humana. Este poema de Graça Pires imprime uma dimensão ética
inesperada no livro, como uma advertência ao leitor para o perigo que a viagem
comporta, o risco de não se voltar atrás com o mesmo olhar: “Querias apenas
vê-la de perto. /Tão perto que não te importavas de morrer.”
Mas se a viagem inscreve na pele o destino, como se diz logo no primeiro
poema, também ela nos leva à infância, como um regresso onírico. Há uma “casa”,
como sempre existe na sua poética, “(D)a casa que me separa da infância”. Não
há, na poesia de Graça Pires, essa transparência de sentido que muitos
gostariam, talvez, de encontrar, mas antes uma espessura que nos resiste, em
que os nomes nos aparecem como cifras ou símbolos que se reenviam uns aos
outros. Uma das experiências mais interessantes (e importantes para compreender
a poesia de Graça Pires) foi a leitura de “Caderno de Significados”, onde,
nesse jogo constante de desvelamento e de ocultamento com que a autora desafia
o leitor, pude aceder em parte ao leque de associações que a poeta estabelece
entre os nomes e os significados dos mesmos. Esse exercício hermenêutico
ajudou-me a entrar num universo que não é sempre fácil e que interpela vivamente
a imaginação. E no meu texto sobre o “Caderno dos Significados” falava numa
“cartografia do olhar”, como o exercício predilecto de Graça Pires. E definia
esta cartografia do olhar como “uma cartografia do coração, onde tudo se
religa, no trilho que vai dos os afectos ao espírito, nesse lugar onde tudo se
demora e devém memória”.
Maria
João Cantinho, poeta
Apresentação
do livro, 27 setembro 2014
Depois do primeiro livro em 1990 («Poemas») que recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores, Graça Pires surge com este «Espaço livre com barcos», o seu 16º título de Poesia. O ponto de partida deste longo poema de 40 páginas é um lugar, o início de uma viagem: «Da casa que me separa da infância /avistava-se o lugar onde as águas / mais espessas do rio se juntam ao mar. /A foz. A ondulação crescente / desafiando as areias.» A narrativa poética vem da autobiografia («Eu te baptizo em nome do mar / disse minha mãe com barcos na voz.») mas, depois de passar pelos poemas à filha («Junto ao cais não digas adeus ao teu amado») e ao filho («Ajusta a areia aos teus dedos de criança»), à irmã («Tempo de criança: tão longe/ e tão próximo do teu nome») e ao irmão («Instáveis como as sombras, as nuvens / perpassam o teu olhar carregado de melancolia») e também ao companheiro («Encostado à amurada de um navio / recordas viagens inacabadas»), este livro de Graça Pires vem convocar uma dupla inscrição (vida e literatura) como nos poemas que são dedicados a escritores - Marta López Vilar e Victor Mateus. Vejamos o primeiro: «No ventre da tua mãe começaste a amar as águas. / E soubeste como se abrem os diques da pele / para jorrarem em litorais que explodem / as marés assediadas pela lua. / Depois quiseste ser cais e barco, / âncora e vela, abrigo e naufrágio. / Tens agora um mar aberto a inundar-te o olhar. / Para sempre.» Reparemos no segundo: «És um navegante solitário. / Cartografas com precisão / todos os vórtices. / E deixas que uma luz coada / entre no convés, pela escotilha, / para esqueceres como são brutais / e longas as cordas da noite / quando recolhes os despojos / dos naufrágios mais secretos.» Entre o «sangue pisado» da biografia e o «estilo» da escrita, Graça Pires prova saber, como Camilo Castelo Branco, que «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade».
José do Carmo Francisco, poeta
Blogue “Transporte sentimental” 28 setembro 2014
SOBRE A POESIA DE GRAÇA PIRES
Graça Pires, de cujo livro
“Espaço livre com barcos” irei procurar falar, foi galardoada com o “Prémio
Revelação da Associação de Escritores, em 1988, com “POEMAS”, publicado dois
anos depois .Seguiram-se: ”Labirintos,” Prémio Nacional de Poesia Sebastião da
Gama,1993, “outono lugar frágil”(1993), dois anos passados “Prémio Nacional de
Poesia 25 de ABRIL”, com “Ortografia do olhar,
e o Prémio
literário do I Ciclo Cultural bancário do SBSI, com“ conjugar afetos”;
no ano seguinte vence o Concurso Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves
e o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho; “Quando as estevas entraram no poema”,
vence o Prémio Literário de Sintra Oliva
Guerra “de 2004, em 2008 o Prémio Nacional Poeta Ruy Belo, com “ O silêncio:
lugar habitado” adiciona-se a este palmarés.
“Espaço livre com barcos”, de 2014 é o seu
último livro publicado.
O homem nasceu só, isolado, juntou-se em
tribos, aglomerou-se em vilas e cidades, transmigrou, internacionalizou-se,
descobriu, construiu, encontrou correspondências, a importância das relações,
da solidariedade, percebeu a teoria dos conjuntos, cresceu, fez-se na arte e na
poesia.
A poesia começou por ser
religiosa, sagrada, afirmou-se solidária, o poeta amassou a realidade com a palavra.
Da Idade do Ferro dos
bardos, glorificando as façanhas guerreiras, da Idade de Prata, de Aristófanes
a Horácio, de Camões a Cesário Verde, de Bernardim a Camilo Pessanha, de
Fernando Pessoa a Herberto Hélder, de Sophia a Ramos Rosa, de Jorge de Sena a
Eugénio de Andrade, a poesia foi sendo feita de memória, emoção e algum suor.
O confronto das ideias com
a realidade, com a “praxis”, transformou-a em mais do que ato de amor, de
exaltação. Falou de e cantou o homem, as suas lutas, aspirações e utopias.
A história humana toma
forma no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, renasceu nos ensinamentos de
Buda, transformou-se com o marxismo, foi-se erguendo em pensamento.
É lugar-comum dizer que a
sociedade atual se encontra em transição, numa encruzilhada, girando em torno
da globalidade, e da individualidade. Os pensadores mais redondos, sem lado,
tentam justifica-la com um chapéu infalível ou com um chapéu para cada cabeça.
A poesia se não for um
espelho em que o leitor se poderá ver (ou rever) tem dificuldade em ser aceite.
Isto na melhor das hipóteses, pois leitores – ouvintes de poesia sempre foram
escassos.
A realidade tumultua-se,
deforma-se, altera-se, fraciona-se. A POESIA TERÁ DE SEGUI-LA, MESMO
ULTRAPASSÁ-LA. Inscrevê-la, escrevê-la na ordem poética
SHELLEY, poeta romântico
inglês, doutrinador importante no domínio da estética, disse:” … a poesia é um
sabre refulgente que consumiria a bainha que o guardasse”.
Este livro de Graça Pires
não pretende erguer-se como um gládio, é uma obra de sabedoria, de ofício, de
estilo depurado, sem exibicionismos formais. Nos poemas “ecoa” a presença de
Eugénio de Andrade, mas também Sophia de Melo Breyner poderia ser chamada para
a conversa, pelo que chamarei de “sacramentação “do sensível.
O “espaço livre” DA AUTORA,
O SEU PERFIL POÉTICO POSSUI UMA MEMÓRIA SENSORIAL, UMA ATRAÇAO UMBILICAL,
ELEMENTAR, INICIAL, PELO MAR.
Há uma “linguagem líquida a
inundar todas as margens”, a sua poesia será um “fantasma”, no sentido
platónico, da realidade. É uma obra de quem foi batizada “em nome do mar”.
Cito:” … E as ondas
enlearam nas águas o meu nome/ abrindo nas fendas do corpo um impulso/salgado
que me brandiu o sangue. /Sei agora que há âncoras afogadas nos meus olhos:
nítido eco de todas as demandas/. Temos um destino marítimo/ na memória me
ensinaram”.
Atentemos nas palavas: eco,
memória, destino.
Se o neorrealismo é uma visão comprometida com
e do mundo, contrária à” cosmovisão” ‘do século XV; se Ungaretti começou a
escrever poesia da dor e de mistério, “escavada da vida”, buscando o mistério
do ser humano, em “Sentimento do Tempo” e “Terra Prometida”, vai finalizar na
busca de Deus; Sophia tem, na pureza da sua escrita, um modo de estar e ser,
exemplar: “Eu sou o solitário e nunca minto/ Rasguei toda a vaidade tira a tira/E
caminho sem medo e sem mentira/ À luz crepuscular do meu destino” (Catilina, em
“ Livro Sexto2). Atente-se na palavra
destino.
Graça Pires:”. Foi com a
sonância do oceano/ que aprendi a amar a música “. E acrescenta, “Conheço bem o
mar inquieto naquelas horas/ em que os barcos esquecem o caminho para o cais.
Fala-nos de “errâncias”,
com “perigos excessivos”, de “um incêndio secreto”, de “um ritual de espera”. Embora possua “… a força
marinheira de Ulisses. /… Ítaca fica muito aquém”.
Não percorre o caminho de
Delfos, como Sophia. A sua pluralidade, o seu destino encontra-o
“… quando os meus lábios
sangram sal e sede”. E revela,” … me
deixo cegar pelo brilho das vagas/ que volteiam a geometria do abismo”.
A poeta diz-nos de uma
solidão na qual cria o conhecimento autónomo e fértil
Casais Monteiro escreveu: A
arte não serve, é. “
“Espaço Livre com barcos”
revela-se não como uma deriva, uma viagem, mas como um “mergulho” vivencial.
Ouvir as ondas respirarem, “… um hino /
prodigioso e medonho/ que ouço rente às fragas”.
A voz da poesia de Graça
Pires é do seu tempo, do seu lugar, é líquida, ocupa o seu espaço, por vezes um
não-espaço (metafórico), preenchido por barcos e falésias...Sabe do “nevoeiro”,
mas traz “…o mapa do tesouro escondido no decote”.
A sua identidade, a sua
memória, a sua poesia, encontram-se à nossa disposição neste “Espaço livre com
barcos”, obra depurada, que nos ecoa no sangue, e na cabeça.
António Augusto Menano, poeta
Apresentação do livro na
Figueira da Foz,18 outubro 2014
Graça Pires nasceu na Figueira da Foz, em 22
novembro de 1946. Após ter sido galardoada com o Prémio Revelação da Associação
Portuguesa de Escritores em 1988 com “Poemas”, foi vencedora de oito prémios
literários nacionais, tendo publicado recentemente “Espaço livre com barcos”
apresentado na Biblioteca Municipal.
A sua obra poética,
inicialmente com ecos de Miguel Torga tem-se desenvolvido com rigor, sem
exibicionismos formais, em estilo depurado, por vezes recordando Eugénio de
Andrade ou Sophia de Mello Breyner. Há nos seus versos uma “linguagem líquida a
inundar todas as margens”. Cito: “… E as ondas enlearam nas águas o meu nome
/ abrindo nas fendas do corpo um impulso / salgado que me brandiu o sangue. /
Sei agora que há âncoras afogadas nos meus olhos: nítido eco de todas as
demandas / Temos um destino marítimo / na memória me ensinaram”.
Urbano Tavares Rodrigues.
Sobre o seu livro “Ortografia do olhar” (Prémio Nacional de Poesia 25 de Abril
– 1995) escreveu: …tem a sensibilidade fina e original, talvez a amargura de
uma Sylvia Plath, aliada a um rigor e contensão que dão à sua poesia o
necessário equilíbrio”.
Escreve uma poesia musical,
dorida, de conhecimento e memória. Fala-nos do que chamaria “sacramentalização
do sensível”. Graça Pires diz-nos de “perigos excessivos”, de incêndios
secretos de um “ritual de espera”. Embora possua “… a força marinheira de
Ulisses / Ítaca fica muito aquém”.
Não percorre o caminho de
Dephos, como Sophia, a sua pluralidade, o seu destino encontra-os “quando os …
lábios sangram sal e sede”. A escritora escreve uma solidão geradora de
conhecimento.
Casais Monteiro escreveu. “A
arte não serve, é.” Em Graça Pires mais do que uma viagem é uma presença,
um mergulho vivencial, o mistério de estar inteira, a ouvir as ondas
respirarem, de olhar “a geometria do abismo”, recordando, vivendo, no corpo e
no coração, “… um hino / prodigioso e medonho”, presente “rente às
fragas”. Graça Pires ocupa, na sua poesia, um espaço, escrito como um
não-espaço, metafórico. Poesia de quem traz “… “o mapa do tesouro escondido
no decote”.
António Augusto Menano, poeta
Jornal “Figueira”, 30
outubro 2014
Espaço livre com barcos, o novo livro de poemas
de Graça Pires
A poeta portuguesa
Graça Pires brinda novamente seus leitores com mais um conjunto de poemas,
intitulado Espaço livre com barcos
(Portugal – Poética edições). Tal livro, seguindo a coerência de sua escrita,
do seu projeto ontológico, húmus e essência de sua verve, desenvolve as linhas
mestras de sua obra, desvelando-nos, mais uma vez, o delicado e decantado
trabalho de uma artesã da palavra, atenta aos deslumbramentos inusitados de
associações lexicais encantatórias, verdadeiras epifanias iluminadoras. É o que
podemos perceber, por exemplo, no poema que se segue:
Entre mim e o mar
ainda me causa espanto a madrugada.
Sempre diferente. Sempre idêntica.
Tons de mel, de romã,
de diamante, de milho seco.
Sopro de sal, de sangue, de limos.
E, por trás das dunas,
a respiração dos amantes
sobressaltando as aves.
(p. 10)
A força da hipérbole a fechar o poema causa impacto e
redimensiona todo o texto: é a respiração dos amantes que aguça não somente as
gaivotas, mas todo o espaço livre, gerando também a madrugada, o deslumbramento
do eu lírico. Com efeito, é o ardor dos amantes que colore, que imprime brilho
ao espaço, tornando-o mágico e sedutor.
Se podemos perceber em Espaço livre com barcos a apresentação das mesmas técnicas no
recorte do poema, desde o uso do verso livre, aos temas ligados à natureza, é
preciso lembrar, no entanto, que todo livro de Graça é sempre inaugural e
guarda nos segredos de sua trama, surpresas e espantos em permanente estado de
nascimento. O antigo, o mesmo, desvela-se sempre com o rosto revigorado,
imaculado, surpreendentemente inovador. Tal ponto de maturação da escrita só é
possível para os poetas que, enfim, conseguiram encontrar sua própria voz, seu
diapasão pessoal, tornando-se capazes de inovar, de deslumbrar, porque são
extremamente fiéis a si mesmos.
Tal coerência em
Graça Pires, no entanto, não vem despida de influências, pois todo poeta para
ser verdadeiro tem também de ser um exímio leitor da tradição lírica. Nesse
aspecto, como fica evidenciado pela epígrafe, Graça pertence à família de
Eugénio de Andrade e, assim, como o poeta de Branco no branco, a autora delineia em sua escrita justamente esse
gosto epifânico por achados linguísticos raros, por uma contemplação anímica e
aureolar do real, configurando o mundo enquanto reino de objetos cristalinos,
puros, agudamente poéticos.
Mais além, podemos
perceber, outrossim, em Espaço livre com
barcos, a presença de Sophia de Mello Breyner Andresen. Dessa última, poeta
essencialmente marítima, Graça soube captar, com maestria e inventividade, o
pendor mítico do oceano, a força pictórica, espiritual e poética que o mar
representa para os homens de todos os tempos. Tais influências são filtradas,
no entanto, pela sensibilidade de Graça, que por sua vez acaba imprimindo no
livro uma marca pessoalíssima, o que a torna, assim como Sophia e Eugénio, uma
exímia e exemplar poeta, mestra tal como os mestres.
O mar em sua
refulgência, em seu ardor selvagem, impactante, abre uma perspectiva ontológica
para eu lírico: é em tal espaço que ele trava fecundo e vertiginoso contato com
o sagrado, desvelando-nos experiência fundamentais, cruciais da condição
humana:
Em direção a um horizonte de bonança
mergulho até ao recife dos corais.
Sinto a lenta valsa dos peixes.
Recupero a inocência, o espanto,
a volúpia, o deleite.
Adivinho as formas, as cores,
a incisão luminosa.
E sei que é aqui o lugar
onde todas as conchas preferem morrer:
no centro das sombras mais belas.
(p.32)
O mar, portanto, permite ao eu-lírico encontrar o
esplendor, a juventude, o espanto primevo e inaugural, tornando tal espaço fulgurante
e mágico. Dessa forma, somente a paixão, desnuda, pode desvelar tal
envolvimento fecundo do eu com natureza:
Quando em minhas mãos dança
a nudez de um rosto,
há um pássaro alucinado
que voa de costa a costa
até encontrar um búzio verde
para se aninhar
e aí desfalecer de paixão.
(p.25)
Poesia da inocência, no sentido mais
nobre de tal palavra, numa época em que a malícia e a ironia, cortantes e
impiedosas, são os estiletes de nosso tempo de mercancias e indigências; poesia
do encantamento, da infância em estado febril; poesia do mar revolto e aberto
em vertigem; eis o que espera o leitor no belo e arrebatador Espaço livre com barcos.
Alexandre Bonafim é escritor e professor de literaturas de língua
portuguesa da UEG – Campus Morrinhos – contato: alexandrebonafim@hotmail.com
“Diário da Manhã” (Brasil), 29 outubro 2014