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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A poesia de Graça Pires

 

À poeta Graça Pires,

                em admiração pela sua entrega à pureza da palavra.

               "somos feitos do mesmo tecido 
                de que são feitos os sonhos"

Com dedos débeis escrevo o teu nome
pelas ruas de Lisboa e do mundo,
onde o silêncio se esconde.

Sob a reverência ao sol,
de olhos movediços,
pergunto: basta o querer?

Respiro a tua arte.
Bebo os teus poemas, sílaba a sílaba,
na casa viva das palavras.
Tua voz nos toca no imprevisto
e repete:
"somos feitos de sonho, espírito e carne".

As águas da realidade que escuto
são o testemunho comum da aldeia global.

Tu és a poeta que transforma,
purifica a língua e entrega-a ao mundo.

                José Carlos Sant Anna, 
                                agosto/2026.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Graça Pires e o desconcerto do mundo



Graça Pires (n.1946) editou o seu primeiro livro Poemas, em 1990, após ter sido distinguida em 1988 com o prémio "Revelação" da Associação Portuguesa de Escritores.
Depois do galardão, a poetisa figueirense já ultrapassou a dezena e meia de obras. Os prémios também se acumularam, chegando à beira de uma dezena: Prémio Sebastião da Gama, prémio de Poesia 25 de Abril, Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, prémio Ruy Belo, entre muitos outros.
Autora de uma linguagem tida como depurada, poetisa do mundo e do tempo, do sorriso, da memória e da infância, Graça Pires já percorreu as categorias que ensaiam a vida e nos prendem a vontade e o desejo de amar e estar no mundo. A sua poesia é, pois, acima de tudo uma leitura do mundo. No seu percurso poético, reclama o olhar, os dias, as palavras, as estrelas, a feminilidade, a natureza e a morte, para dar concerto ao universo que decidiu abraçar. São coordenadas da longa estrada que a sua escrita encetou, num registo de grande simplicidade que a autora soube manter no seu processo criativo.
Graça Pires disse, numa entrevista, que entende a poesia como um antídoto contra o desconcerto do mundo e afirma o poeta como aquele que, nos versos encontra a liberdade para se comprometer com os valores próprios de quem questiona a sociedade e resiste.
Motivada para tudo o que a rodeia, a poetisa utiliza os sentidos como a frequência que lhe permite reagir à folha em branco.
Autora de registos muito variados, a sua poesia pode ser encarada como diferentes peças musicais que melodicamente se enchem de ritmos e toadas diversas. Para quem não conhece a sua obra, é mister ler de início os seus Poemas, e passar pela solidão, o labirinto, a luz, a claridade, a solidão e o improviso de viver, porque as ruas onde caminha esta poetisa figueirense continuam cheias de gente.

Estão cheias de gente
as ruas por onde caminho e me demoro.
Procuro uma senda de lágrimas
em faces sombrias, para desviar
até ao lado mais esquivo do peito
o curso do rio onde flutua
a sombra do navio nocturno
que transporta a antiquíssima
inocência dos meus olhos.
                    
Em Antígona passou por aqui (2021)


Era quase a manhã a sangrar nos pulsos.
Qualquer gesto seria inútil para entoar
todos os silêncios que enchem a noite.
Eu podia esperar à beira mar o amanhecer
ou os amigos a quem a errância dos mastros
rodeia a garganta.
Podia adormecer sob as águas onde se escondem
as quilhas seduzidas pela voragem.
Podia, eu sei, abraçar os navios
ou ser a asa e o voo das aves solitárias.

António Tavares, escritor
In: Poetas e prosadores figueirenses: (1850) - (1970). Figueira da Foz: Ed. de autor, Jun. 2026, p. 65-66

terça-feira, 2 de junho de 2026

POEMAS ESCOLHIDOS: 2012-2025

 

POEMAS ESCOLHIDOS: 2012-2025


Poemas Escolhidos 2012-2025, de Graça Pires, é mais do que uma simples reunião antológica de poemas escritos ao longo de treze anos: trata-se da construção de uma verdadeira cartografia interior, de um território poético onde a memória, a paisagem, o corpo, o desejo, a infância, a linguagem e o tempo se entrelaçam numa tessitura verbal de rara intensidade lírica. Este livro permite ao leitor acompanhar a continuidade e a evolução de uma voz profundamente singular no panorama da poesia portuguesa contemporânea, uma voz que soube permanecer fiel às suas obsessões fundamentais sem nunca se repetir, alargando continuamente os seus campos simbólicos e emocionais.
Ao entrar neste universo poético, o leitor percebe imediatamente que a escrita de Graça Pires nasce de uma relação visceral com o mundo. Nada aqui é artificial ou meramente ornamental. Cada imagem parece brotar de uma experiência profundamente vivida e interiorizada. A poesia surge como necessidade vital: uma forma de interrogar o sentido da existência, de preservar a memória dos afectos e dos lugares, de resistir à erosão do tempo e à violência da realidade contemporânea. Há nesta escrita uma permanente tensão entre perda e permanência, entre destruição e desejo de redenção, entre sombra e claridade. Talvez por isso a imagem da luz atravesse obsessivamente toda a obra — uma luz que nunca é apenas física, mas espiritual, ética e existencial.
Desde Uma vara de medir o sol, percebe-se que a poeta constrói uma linguagem fundada numa profunda consciência da precariedade humana. O próprio título sugere essa tentativa quase impossível de medir o indizível, de encontrar uma ordem íntima para aquilo que escapa continuamente. O sol, símbolo ancestral da vida, da verdade e da revelação, torna-se aqui uma
medida frágil da passagem do tempo e da vulnerabilidade do humano. Muitas vezes, os poemas parecem erguer-se a partir de um sentimento de ameaça: ameaça ecológica, histórica, emocional, espiritual. Os rios secam, as fontes desaparecem, os pássaros enlouquecem, os mares tornam-se lugares de destruição, os campos perdem fertilidade. A natureza, tão presente em toda a obra, nunca aparece como cenário idílico separado da condição humana; pelo contrário, ela reflecte continuamente as inquietações, os medos e as feridas do sujeito poético.
A terra ocupa um lugar central nesta poesia. Não apenas enquanto espaço físico ou paisagístico, mas enquanto lugar primordial da memória e da pertença. A poeta escreve a partir de uma geografia emocional profundamente marcada pelo mundo rural, pelas aldeias, pelas searas, pelos pomares, pelas eiras, pelas montanhas e pelas casas antigas. Há um saber ancestral inscrito nestes poemas: o saber dos ciclos agrícolas, das estações, dos ritmos lentos da natureza e do trabalho humano. As mãos que mondam a terra, que carregam água, que amassam o pão ou seguram as alfaias agrícolas aparecem repetidamente como símbolos de uma humanidade ligada ainda ao essencial. Quando a poeta evoca essas mãos, fá-lo com um respeito quase sagrado, como se nelas sobrevivesse uma dignidade ameaçada pelo esquecimento moderno.
Mas esta ligação à terra não corresponde a uma visão nostálgica ou ingénua do passado. A poesia de Graça Pires está profundamente consciente da violência da história e das fracturas do presente. Muitos poemas são atravessados por um sentimento de exílio interior, de desenraizamento, de perda irreparável. A modernidade aparece frequentemente associada à aceleração do tempo, à destruição dos vínculos comunitários, à devastação ecológica e ao empobrecimento espiritual. Há uma dor latente perante um mundo que perdeu a capacidade de escutar o silêncio, de respeitar os ritmos naturais e de reconhecer o valor simbólico das coisas simples.
Nesse sentido, esta poesia pode também ser lida como uma forma de resistência ética. O poema torna-se espaço de preservação da memória, lugar onde ainda sobrevivem as vozes dos mortos, os gestos antigos, as palavras essenciais e os afectos fundamentais. Em muitos momentos, Graça Pires escreve como quem tenta salvar do desaparecimento aquilo que ainda merece ser amado. A poesia surge então como acto de cuidado e de fidelidade: fidelidade à infância, aos pais, aos amigos, aos amantes, aos lugares habitados pela memória.
A infância, aliás, constitui um dos núcleos centrais de toda esta obra. Não é apenas recordação biográfica; é uma espécie de pátria espiritual perdida. A infância representa o tempo da inocência primordial, quando o mundo ainda possuía uma dimensão mágica e sagrada. Nos poemas, surgem frequentemente imagens ligadas a esse universo inaugural: barcos de papel, pássaros, quintais, rios, árvores, ventos, brinquedos, campos verdes, fontes, noites de verão. Tudo parece envolto numa luz inicial, quase mítica. Contudo, essa infância é constantemente revisitadas a partir da consciência dolorosa do tempo. O sujeito poético sabe que não pode regressar verdadeiramente ao lugar perdido; pode apenas reconstruí-lo pela linguagem, pela memória e pelo sonho.
Há nesta escrita uma extraordinária capacidade de transformar elementos simples em símbolos de grande densidade emocional. O mar, por exemplo, é uma das imagens mais recorrentes e multifacetadas da obra. Surge como espaço de desejo, de errância, de memória, de liberdade, de sensualidade, mas também de perda, de ameaça e de morte. Em Espaço livre com barcos, o universo marítimo torna-se quase uma ontologia poética: existir é navegar, enfrentar tempestades, procurar portos impossíveis, sobreviver ao naufrágio interior. O mar representa simultaneamente o fascínio do infinito e o perigo do abismo.
Essa dimensão marítima aproxima a poesia de Graça Pires de uma longa tradição cultural portuguesa. Contudo, a autora evita qualquer retórica nacionalista ou épica. O mar não é aqui símbolo glorioso de conquistas históricas; é antes espaço íntimo e existencial, lugar onde se projectam as fragilidades humanas, os desejos e as ausências. Os barcos que atravessam estes poemas são frequentemente embarcações da memória, do desejo ou da solidão.
Outro aspecto fundamental desta obra é a relação intensa entre poesia e corpo. O corpo feminino surge como território de inscrição do desejo, da memória, do sofrimento e do tempo. Em muitos poemas, a sensualidade manifesta-se através de imagens ligadas à água, aos frutos, às flores, ao vento e ao fogo. O erotismo nunca é explícito ou vulgar; pelo contrário, desenvolve-se numa linguagem extremamente sensorial e simbólica, onde o desejo aparece integrado nos ritmos profundos da natureza. Há uma permanente fusão entre corpo e paisagem: o mar prolonga-se nos gestos, as ondas confundem-se com os movimentos do desejo, os frutos adquirem uma espessura erótica, os ventos parecem atravessar a pele.
Essa dimensão torna-se particularmente evidente em Fui quase todas as mulheres de Modigliani, talvez um dos momentos mais intensos da colectânea. Inspirando-se nas figuras femininas pintadas por Modigliani, Graça Pires cria uma galeria de mulheres simultaneamente concretas e simbólicas. Cada poema funciona como um retrato interior, onde se cruzam sensualidade, melancolia, memória, solidão e consciência do envelhecimento. As mulheres destes poemas habitam um espaço suspenso entre a luz e a sombra, entre o desejo e a perda, entre a nudez e o silêncio.
A pintura desempenha aqui um papel decisivo. A poesia de Graça Pires possui uma fortíssima dimensão visual. Os poemas parecem muitas vezes construídos como quadros: há atenção minuciosa às cores, às gradações da luz, aos gestos, às posições do corpo, às texturas e aos movimentos subtis da paisagem. O olhar é um elemento central nesta obra. Olhar significa conhecer, amar, recordar, sofrer, resistir. Os olhos surgem constantemente como lugares de revelação e de memória. É através deles que o mundo se torna sensível e simbólico.
A musicalidade da linguagem constitui outro traço essencial da escrita de Graça Pires. Os poemas desenvolvem-se em ritmos lentos, ondulantes, frequentemente próximos da oração, da litania ou do cântico. A repetição de certas palavras e estruturas sintácticas cria uma cadência hipnótica, quase ritualística. O vento, o mar, as aves, os rios, as sombras, a luz e o silêncio reaparecem continuamente, formando uma espécie de rede simbólica que atravessa toda a obra e lhe confere unidade profunda.
Importa também destacar a dimensão cultural e intertextual desta poesia. Graça Pires dialoga discretamente com múltiplas tradições literárias, artísticas e musicais. Surgem referências a Rilke, Neruda, Virgílio, Hemingway, Chopin, Mozart, Schubert e Modigliani, entre outros. Contudo, essas referências nunca funcionam como simples demonstração de erudição. Elas integram-se organicamente no tecido do poema, revelando uma consciência estética ampla e profundamente humanista.
Ao longo das quase trezentas páginas desta colectânea, o leitor percebe que a obra de Graça Pires se constrói em torno de grandes temas universais: o amor, a morte, o tempo, a memória, o desejo, a perda, a infância, a solidão, a natureza, a linguagem. No entanto, esses temas nunca aparecem abstractamente; incarnam-se sempre em imagens concretas, sensoriais e emocionais. É essa capacidade de unir intensidade lírica e densidade simbólica que torna esta poesia tão singular.
Poemas Escolhidos 2012-2025 afirma-se, assim, como uma obra de grande maturidade estética e humana. Graça Pires construiu ao longo dos anos uma linguagem própria, reconhecível e profundamente coerente. A sua poesia devolve-nos uma percepção mais lenta e mais profunda do mundo, lembrando-nos que ainda existem palavras capazes de resistir à brutalidade do tempo e à dispersão contemporânea. Ler estes poemas é entrar num espaço de escuta, de contemplação e de inquietação — um espaço onde a fragilidade humana se transforma, através da linguagem, numa forma rara de beleza e de verdade.

Maria João Cantinho, escritora

Na apresentação do livro, 30 Maio 2026