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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Poemas escolhidos: 2012-2025

                                                               



Apresentação de Poemas Escolhidos (2012-2025), de Graça Pires (Lisboa: Poética Edições, 2026) | 17 de outubro de 2026, Unicepe (Porto)

Ocorreu-me, durante a leitura deste livro e ao preparar a sua apresentação, certo fragmento do poeta Casimiro de Brito: «O poema, em si, será sempre palavra umbilical que liga o mundo à sua memória e esta à utopia que a preserva»[i].

Destaco a expressão «palavra umbilical» e os termos «memória» e «utopia». Eles coincidem, de facto, na mundividência poética de Graça Pires, a qual, voltada pelo exercício do verbo para a relação íntima com o universo do qual parte, se encontra decididamente dirigida para o sensível, no duplo sentido percetivo e emotivo da palavra. Trata-se de um universo que se pretende comunicável poeticamente, não limitado à estática expressão pessoal de estados de espírito ou então à enumeração de objetos colecionados e mantidos em prateleiras narcísicas, mas antes dedicado ao gosto do regresso, redescoberta, espanto e meditação daquilo que é devido e próprio do humano. A ele é próprio e devido o propósito da busca, algo que lhe é tão intrínseco como o uso da palavra ou como a insatisfação diante de respostas provisórias ou imagens que sente como enigmáticas. A vida como mistério que abrange o presente, o futuro e o passado mantém-no em desassossego, ao ponto de o colocar sempre preparado para iniciar o percurso para outros lugares, reais ou imaginários. A utopia poderá definir a substância desses lugares, se pensados, por exemplo, na forma de oxímoros como «existências inexistentes», «significados insignificantes», «visibilidades invisíveis» ou «presenças ausentes»; na tensão desses termos, o percurso faz-se, preferencialmente, pelo caminho das palavras: leia-se o início de um dos fragmentos que integram uma das obras recolhidas nesta escolha, admirável na sua rigorosa coerência, Antígona Passou por Aqui: «Continuarei a definir o exíguo espaço de uma errância no culto da palavra. Habita-me a expectante mudez de um náufrago preso ao barco que o salva.» (p. 207).

O caminho prossegue pela palavra e para a palavra, na ação de a indagar no refúgio secreto do corpo silencioso. «Procuro o lugar onde começa o silêncio» é a frase que serve de limiar a algumas sequências de Antígona, litania pessoal de quem sabe ser a partir do corpo e da meditação dos seus movimentos o início da revelação interior da palavra poética. Como olhos cegos místicos preparados para receber a luz, a mudez revela-se essencial nesse processo de busca. O silêncio obriga o corpo à escuta dos passos da memória e a iluminar-se em cada encontro com o lugar preservado que, na formulação de Casimiro de Brito, corresponde ao da utopia: «Na lonjura de vozes antigas seguro a luz. Assombro-me da paisagem. Deixo que as palavras cedam inteiramente cedam ao indizível subterrâneo da paixão. Com um alarido preso à boca, leio os poetas das palavras claras e quebro no interior das pálpebras os versos mais cúmplices. Semelhante a um primitivo nómada, guardo comigo o fogo da poesia, para que nunca se extinga e me seja confissão e esconderijo.» (p. 207).

A comparação com o «primitivo nómada», noutro poema transfigurado em «navegante solitário» (p. 68), coloca-nos diante da inquietação como característica da caminhada, algo que diríamos, de facto, perseverante na poética de Graça Pires desde a publicação da sua primeira obra, em 1990. Poemas Escolhidos [2012-2025] constitui uma súmula apurada para o leitor das diferentes paisagens colhidas ao longo do percurso pessoal de outra poeta «de palavras claras». Esta é a segunda reunião do género, se considerarmos a publicação anterior de Poemas Escolhidos [1990-2011], em edição de autor, na qual incluiu poemas selecionados também de obras anteriores, embora sem a referência expressa das obras que lhe servem de fonte; neste livro, integram-se textos poéticos de onze obras publicadas desde 2012, várias na chancela da Poética (podemos afirmar que acompanharam o crescimento da editora, criada em 2013 pela poeta Virgínia do Carmo), cujos títulos denotam imagens significativas retidas durante a deambulação: Uma vara de medir o sol (2012), Caderno de significados (2013), Espaço livre com barcos (2014), Uma claridade que cega (2015), Fui quase todas as mulheres de Modigliani (2017), A solidão é como o vento (2020), Jogo sensual no chão do peito (2020), Antígona passou por aqui (2021), O improviso de viver (2023), Era madrugada em Lisboa: louvor a um dia com tantos dias dentro (2024), Talvez haja amoras maduras à entrada da noite (2025). Significativamente, o tempo, a memória, a feminilidade, a liberdade, formas de ligação umbilical ao mundo, surgem nestes livros como núcleos constantes de intenso fulgor.

Pensemos no tempo e na «vara de medir o sol», na inelutabilidade do movimento das horas na sombra do mundo, a sombra dos corpos a cobrir a terra. «Envelhecemos com uma vara / de medir o sol na linha do olhar. / Não entendemos os sinais inscritos / nas margens do abismo.» (p. 27), lemos num poema desta sequência inicial, anunciando-nos entorpecidos para a visão verdadeira do mundo que habitamos, sem a capacidade de reconhecermos os sinais de uma mais antiga relação com a terra. Essa privação é evocada na releitura genesíaca de uma idade poética primitiva pré-humana a qual, pressentida, motiva o sentimento nostálgico que a palavra poética procura dirimir pela sua evocação. Referimo-nos à composição da página 23: «Antes do homem havia a terra: / geografia mágica, sagrada / que, na luz e na treva, explodiu / de espanto e guardou, milenarmente, / os mistérios da vida e da morte. Depois da terra veio o homem. / E o homem tornou-se um morador incauto / e perdeu o paraíso onde agora os deuses, quando passam, desviam o olhar».

Mostra-se incontornável pensar em Hölderlin e no desaparecimento do sentido do sagrado no tempo humano da indigência, aguardando-se do poeta o cumprimento da missão de reaver o caminho perdido pela recuperação e elevação da linguagem poética. Noutros termos, prossegue o apelo à tarefa da religação umbilical com a memória utópica de uma idade de ouro poética que o descuido e desatenção humanos se obstinaram a destemperar. Julgo aqui pertinente convocar o conhecido texto de Ruy Belo incluído em Na Senda da Poesia, no qual se rende à palavra poética a primazia efetiva e temporal[ii], antes da sua devassa na palavra usada, esquecida daquilo que em tempos foi. Na poesia de Graça Pires, a possibilidade de reelevar a palavra à sua primitiva origem poética concretiza-se na demanda do reencontro com a memória da primeira imagem e da metáfora que a criou, ainda nos termos de Ruy Belo. Observamos, entre os poemas escolhidos, que o privilégio do passado como memória reside na tentativa de superação do tempo medido pela vara, a conseguir através da interrogação da palavra com o intuito de recuperar a substância vivida interiormente em épocas de felicidade. Leia-se a entrada «Nome» em Caderno de Significados (p. 42): «Interpelamos as palavras à procura de um nome para a casa onde moramos. Um nome que se ajuste inteiro à memória do olhar e do silêncio. Um nome tão secreto como as cantigas que as mães cantam baixinho enquanto embalam nos braços os filhos e a noite para não perderem o poder de repartir a sede.». Uma vez mais, a interpelação remete para uma época afastada, emocionalmente disposta para a felicidade, representada não apenas como núcleo de nostalgia mas, sobretudo, enquanto memória da condição livre do ser e da própria linguagem poética.

São múltiplos, nesse âmbito, os exemplos a conhecer ao longo deste livro; escolho um poema de Espaço Livre com Barcos, dedicado à irmã Teresa: «As ondas do mar salgado / andam correndo à vontade. / Levam barcas de desejo, / trazem barcas de saudade. / Cantiga de roda, / Tempo de criança: tão longe / e tão próximo do teu nome. / Tempo que já não volta. / Que tiveste de inventar para ser teu. / Como quando o odor dos limos / benzia as tuas mãos até à inocência / dos gestos mais discretos / e escondias, debaixo do travesseiro, / o teu olhar verde-mágoa.» (p. 58). A tradição popular combina-se com a música dos rituais da infância, tempo «que tiveste de inventar» – no sentido de encontrar, de reencontrar – «para ser teu». Já outros versos no limiar de outro poema do mesmo livro, «Espreito pelos dedos a memória / mais longínqua da infância / Procuro-a intensamente» (p. 81), colocam-nos perante idêntica ânsia. Do ponto de vista representacional, a criança é a menina com bibe, uma das mulheres de Modigliani, brincando com o vento e lembrando «os dias / em que nada quebrava a porcelana / dos lírios de intacta leveza» (p. 99). Essa criança-mulher relembra-nos a possibilidade de recuperação do ser essencial, autêntico do homem, que António Ramos Rosa defendeu como fundamento da criação poética[iii]. Leveza passada, magistralmente figurada nas abundantes referências à dança, sobretudo nos poemas escolhidos de Jogo sensual no chão do peito, numa clara tentativa de religação ao tempo dos deuses, numa época em que, de acordo com o mito, Astreia, deusa da justiça e da pureza, ainda não abandonara a humanidade corrupta e violenta ao seu destino. Leia-se um dos poemas mais notáveis dessa seleção: «E dancei descalça por todos os lugares / imitando os rituais aos deuses / das límpidas manhãs, / ou aos anjos das trevas, / na euforia do enlevo. // Cúmplice fui de bacantes e de bichos. / De árvores e de chuvas fui irmã. // Concebi-me a usar a máscara das tragédias gregas / até escutar vozes divinas. / Bailarina imperfeita e persistente / fiz do meu perfil a promessa inequívoca / de um cerimonial dos sentidos, / um salto mortal do meu próprio começo.» (p. 166).

No traço dionisíaco dos versos sobrepõe-se a limpidez e luminosidade apolíneas do sentido divino da justiça, apelo tão presente na poética de Graça Pires. Comentando a dança na obra Ninfas, o filósofo Giorgio Agamben interpreta-a precisamente como uma operação que se rege pela memória e pela energia, assim como pela articulação de imagens no tempo[iv]. De igual modo, no poema, as imagens são a máscara que, ocultando a identidade, permitem a escuta das vozes divinas. «Inventei a dança para me disfarçar», afirmava Sophia de Mello Breyner num poema de Coral (1950), «porque eu era semelhante às paisagens esperando / E ninguém me podia entender»[v]. Diria tratar-se de versos com profunda afinidade com as paisagens de Graça Pires, que, numa dicção própria, assinalava numa outra composição do mesmo livro: «Cheguei a escrever a minha vida. / Mas nada do que disse / podia demonstrar / como me transfigurava / na revelação de rituais / em demanda do eterno. // Evasivas se tornaram as palavras / que me reclamavam inteira no deleite / de um aceno primordial rodopiando / o fôlego divino que me fazia voar / por cima de mim mesma» (p. 175). No universo da dança, clamava Paul Valéry meditando sobre a pintura de Degas, não há lugar para o repouso e a imobilidade é algo imposto e forçado[vi].

Contra a sedimentação do mundo, o sentido sagrado da sua fundação divina reconstitui-se no canto da liberdade dos seres e da justiça, relembrando os seus heróis como Antígona ou momentos de claridade como os que encontramos na série de composições dedicadas à memória da Revolução de Abril, entre as quais a que se segue: «Estava escrito no muro branco / «A liberdade é minha». / Alguém riscou a frase e escreveu: «Nós somos a liberdade.» /A partir desse momento, / quem por ali passava e escrevia também: / Nós somos a liberdade». / No muro inteiro ficou impressa / aquela litania espontânea de palavras / que esvoaçavam no peito / como uma bandeira.» (p. 271). Na memória espontânea dessas palavras reside muito da utopia que consente a ligação umbilical do poeta a valores como a dignidade, atendendo assim à lição de Ramos Rosa da poesia como emancipação da espécie e como centro da liberdade. A dignidade humana compromete-o a não silenciar as dores do seu tempo, conforme nos é dado ler em poemas de Graça Pires como em «Leu a notícia no jornal» (p. 144) ou em «O poeta chorou» (p. 299), sobre os naufrágios de emigrantes no Mediterrâneo, com a comovente sequência apoiada na tragédia do menino sírio Aylan, em «O Mediterrâneo ficou mais transparente» (p. 133). A poeta compreende e expande o alcance de palavras como as de Simone Weil, para quem justiça, verdade e beleza são irmãs e aliadas. Citando-a, «Com três palavras tão belas não é preciso procurar outras»[vii].

São três palavras, três ideias que, em boa hora, o leitor encontrará sem grande dificuldade em Poemas Escolhidos. A palavra umbilical que referi no início também delas se faz, formando a utopia de maravilhamento que, no poema com este título do último livro (p. 297), Talvez haja amoras maduras à entrada da noite, se associa à mais sublime claridade. Parece-me ser esse ofício da luz, da «luz criadora de luz» das palavras a abrasar «a boca dos poetas», uma das leituras a colher na poesia de Graça Pires. Luz e fogo que a colocam na linhagem de poetas como Rimbaud, Herberto, Ramos Rosa, Fiama ou João Rui de Sousa, e de tantos outros que com ela têm vindo a dialogar na definição de uma arte poética tomada como outro tópico privilegiado em Poemas Escolhidos. Entre vários exemplos de reflexões metapoéticas, escolhi a entrada «Poema» de Caderno de Significados para concluir a minha intervenção:

«Não procures o poema, me disseste. Deixa que ele venha por sinuosos trilhos, ou pelo riso das crianças, ou pelo cantar dos pássaros, ou pelo nome rasurado dos mortos, ou pelo transparente caminho do coração.» (p. 43)

Deixemos que ele venha. Procuremos o lugar onde começa o silêncio. Obrigado, Graça Pires. Muito obrigado a todos.

 

Porto, 17 de outubro de 2026.

Francisco Saraiva Fino, Professor

 

 



[i] Brito, Casimiro de (2007) – Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, p. 71.

[ii] Belo, Ruy (2002) – Na Senda da Poesia, ed. Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Lisboa: Assírio & Alvim, p. 69.

[iii]Rosa, António Ramos (1986) – Poesia, Liberdade Livre. Lisboa: Ulmeiro, p. 34.

[iv] Agamben, Giorgio (2010) – Ninfas, trad. Antonio Gimeno Cuspinera. Valencia: Pre-Textos, p. 15.

[v] Andresen, Sophia de Mello Breyner (1992) – Obra Poética I. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 242. O poema intitula-se «Inventei».

[vi] Valéry, Paul (1965) – Degas Danse Dessin. Paris: Gallimard, p. 26.

[vii] Weil, Simone (2022) – A pessoa e o sagrado, trad. Rita Sousa Lopes. Lisboa: Guerra e Paz, p. 68.