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quinta-feira, 7 de abril de 2022

REINO DA LUA

 


Reino da Lua. Lisboa: Escritor, 2002


O projecto-base deste sexto livro de Graça Pires pode estar no poema 4: «Quero um poema, ainda que imperfeito, mas que fale de amor. / Que diga o corpo inteiro, antevendo o júbilo das mãos. / Que diga a boca adjacente à boca e os olhos em festa e a lua ardendo atónita nas veias. / Um poema onde doa a ausência dos abraços, onde se redima a mendicidade do olhar.» Para alcançar esse objectivo o poeta sabe que tem que parar o tempo: «Pára todos os relógios, para escutar a respiração dos dias.» Isto se por «parar o tempo» entendermos o «não avançar», mas sim o recuar numa espécie de viagem à memória: «Não me lembro da cor dos meus olhos quando, em menina, me comovia com heróis imaginários. / Mas, recordo-me bem, eu fui a princesa do conto de fadas da minha infância. / Mas depois perdi a inocência, por descuido, e deixei de ser princesa. / Blondina era o seu nome.» Mas essa viagem é também descoberta de que mesmo a infância (paraíso perdido) não é um lugar estático e sobre ele cai a erosão do tempo: «O meu retrato de criança vai-se cobrindo de pó. Nada me pertence salvo a memória de trilhos luminosos na encosta da noite.»

O que o poema diz é que o amor é, não só a memória do encontro no passado («Houve um ano em que as andorinhas se esqueceram de partir») mas também a memória antecipada de um encontro no futuro: «Hoje, teço no teu peito, indizíveis naufrágios: não para morrer, mas para ser salva de pretéritas e futuras solidões.»

Mas não há nesta viagem poética de Graça Pires apenas a voz do «eu». Seja a lembrar Bertolt Brecht («Com a noite entrincheirada nos dedos, engatilhou as letras contra os lábios, até acender, preso ao coração, o lume das palavras.») seja para lembrar os 25 anos do 25 de Abril no desejo de uma pátria melhor. «Aqui onde o coração reclama uma pátria melhor / volto ao lugar das palavras que nunca calei / por saber que o silêncio se articula na errância da voz / e que nele cabe a solidária multidão que ama por inteiro a liberdade.»

No difícil trânsito entre a certeza da morte e o precário do amor, o poeta sabe que só uma arte poética forte o poderá resgatar do esquecimento que o ameaça: «Sem qualquer pretexto, transcrevo linha a linha / o perfil emotivo desta cidade, onde piso todos os caminhos procurando o rio e o corpo me estremece à proximidade da água. /, «como se escavasse no coração a promessa de uma pátria planto, entre as unhas, heras de palavras que constroem a morfologia dos nomes que amei.»

 

José do Carmo Francisco, poeta

“Notícias da Amadora”, 24 de outubro de 2002

e “Diário Insular”, 20 março 2003







Negociando a noite

Soubéssemos ao menos a matéria de que é feito o que em nós não é matéria

David Mourão-Ferreira

 

Já se sabe que a noite é o melhor pretexto. A noite serve para todos os crimes, para todas as violências, para todas as dádivas e permutas, incluindo o amor. A noite presta-se ao traficar pantanoso, ao medo clandestino, à febre dos afectos, incluindo o amor. À noite confundem-se mais as palavras e os sorrisos e, quando ocorrem pressurosas as recordações do sol da sua sede, são múltiplas as formas de colocar as mãos e os lábios. Durante a noite os segredos despertam, os mistérios percorrem as volutas de um labirinto inconsumível, e não se pode negar o encanto que, de entre todos, desaba no poema. Porque é pela noite, muitas vezes, que a lua faz incidir nas palavras o mel que as transfigura, o suor que as apresa, o calor que as induz ao risco.

Quando falamos da noite não sabemos bem do que falamos, não há definição concreta com tão ilimitado número de atributos abstractos. Pouco importa, não é defini-la o que nos move: é descobrir no coração do verbo o trilho para o seu cometimento, é encontrar na mão direita, onde as veias engrossam / como rios, […] todos os enredos / que se revezam: inevitáveis, aleatórios, urgentes.

Estamos a referir-nos desde o início ao último livro de Graça Pires, “Reino da Lua”, Estamos, num exercício profundo e consolador, a penetrar dentro desta noite primordial onde a memória e o corpo se cruzam e completam, onde a infância corta o outono a gumes de silêncio e de tristeza. Estamos, se quiserem, a partilhar a revelação de um céu nocturno onde um barco acena e as mãos acolitam.

Não pretendemos desmontar o poema consonante nem refazer as partes, Graça Pires não necessita de ajuda, ela própria, com um vigor exemplar, único sobrevivente de um enredo imaginário que se crê, gera o concluso e expõe os fragmentos. Para nós sobra, ao lê-la, a emoção, por vezes a comoção: não é fácil nem inócuo, nem livre de perigos profundos e abismos reais, o negócio com a noite, sobretudo de o luar – que o há sempre, oculto que seja dentro de punhos cerrados ou de olhos fendidos por um lume de barro, a par do sol – é um luar de outono.

Porque o tempo comanda a noite e dela faz esta noite e não outra, uma nova, uma noite de todo transfigurada, porque o tempo soma os afectos e amotinações dentro das nossas rugas e a lua afunda a cordilheira dos afectos – bem sabemos como a cada momento se cumpre o risco de escorregar um pé sobre uma lágrima inerme, uma dor limosa, um grão de nostalgia. É agora, sabe-o Graça Pires, um musgo espesso à beira do caminho, junto às ravinas de dias e mais dias cheios de cantos e ciladas, nada como dantes, é agora preciso calcular os passos e tentear o balanço do corpo, nada como outrora, nada como nesse ano: Houve um ano em que as andorinhas se esqueceram de partir. […] Agora nenhum horário / retarda o êxodo das últimas andorinhas em direcção ao sol.

Restam perguntas, nem sempre formuladas nos versos, mais vezes adivinhadas num tom entre o mel e a agonia: é neste território perturbador que nos prende a poetisa, ao ponto de nos sentirmos, desde muito cedo, como filhos dessa pátria onde o silêncio se confunde com a noite, onde um verão / inclinado sobre o corpo, incendeia de luzes as sombras / que me rondam as mãos.

E há depois (ou antes) a criança que foi Graça Pires. Não se acredite quando diz Depois perdi a inocência, por descuido: não é verdade, a poesia de “Reino da Lua” desmente este verso – atrevo-me a dizer que ela é, genuinamente, de uma matéria pura, qual não sabemos, mas imaculada, feita ao sabor da palavra breve e sem mancha nem precaução. Quando a poetiza diz O meu retrato de criança vai-se cobrindo de pó refere-se exactamente a isso: ao retrato. E quando diz trago, na boca, um imenso / deserto traçado a sede, corrige logo com os belíssimos versos, fruto precioso da maturidade poética nascida de uma sensibilidade imanente: Sei, hoje, onde o mar adormece descuidado: tão próximo / da sombra dos navios, que torna irremediável o júbilo das ondas.

Falemos, então do amor, já que não há mais nada / a fazer senão amar. Apesar de tudo. Apesar de nada. Falemos desse cheiro a rosmaninho à beira dos dedos / e [de] um pássaro desvairado por dentro do peito.

Falemos dessa distância das mãos que se anula e da linguagem do afecto na curva dos braços. Falemos nesse poema, ainda que imperfeito / mas que fale de amor. / Que diga o corpo inteiro, antevendo o júbilo das mãos. / que diga a boca adjacente à boca, e os olhos em festa.

Sem o verão cheio de sol, sem os extremos consentidos de um calor em excesso, sem o bruto desarmar das guardas e o fragor insano das batalhas. Mas habilmente cheio de sabedoria, traficando com o outono, contrabandeando o tempo de véspera, negociando a noite: e a lua / ardendo atónita nas veias. Um comércio com a noite que é partilha de outras noites e com elas se completa: Quero sentir a tua noite a rondar-me o sangue / quando dizemos: “é tempo de acender o fogo”; porque há a nossa noite e a noite do outro e quando as noites se olham na transparência dos olhos tudo se transfigura, a tal ponto que a poetisa pode afirmar que Um verão / inclinado sobre o corpo, incendeia de luas, as sombras / que me rondam as mãos.

E à medida que o pó vai cobrindo esse retrato de criança, mais o amor se extrema e dulcifica, e a poetisa pressente, quando o mar se enfurece […] uma […] alegria a latejar no corpo. À medida que essa cumplicidade com o tempo se afirma e persiste, a poetisa fixa no calendário o instante de ser jovem, e a pergunta apagada exangue, quase fere a sua língua: Diz-me, meu amor, onde se cruza a tua sombra com a minha.

Talvez pareça o desalento rondando os portões do outono, açulando os cães ao fundo deste quintal tardio em que olhamos os frutos sem a gula voraz de uma canção de maio. Talvez pareça o soçobrar das forças e o exaurir das esperas, o cansaço do gesto em assumir essa violenta cor da solidão. Desiludamo-nos. Graça Pires emenda de imediato com estigmas da infância no interior das mãos […] Há pátrias onde as mãos se tornam perfil de pássaros / definindo o fraterno voo do silêncio. É esse o meu rumo, / rente a um lugar conivente com as manhãs que redimem / as noites sem afecto.

Chega-se assim à forma indisciplinada de não resignação: nunca o medo ao silêncio e à solidão, antes a busca deles – terra e ar de um país de utopias. Traficando com a noite, de preferência. Graça Pires negociando a noite: Houve, porém, uma noite em que disseste “meu amor” / e o coração alvoroçou-se-me no peito.

São memórias, é o comércio antes do sol. O vício das nossas unhas crescendo sempre e o rumor das nossas rugas fervilhando no sangue. As difíceis negociações no “Reino da Lua”. Percorrem-se as horas e os dias em busca do repouso, de um mítico instante sem sobressalto outro que o de uma pele aflorando a nossa pele, de uma boca refazendo o nosso fôlego, de uns dedos descobrindo o sopro e o cântico dos poros.

Faz-se a travessia que refere a poetisa Graça Pires e, sem darmos por isso, inopinadamente, à revelia dos sentidos e dos afectos, achamo-nos dentro da nossa noite em frente da noite do outro. E, consentida que se torna a catástrofe anunciada, resta-nos ainda o projecto de outra nova transcendência, a obstinação no percurso dentro de um mar adverso: Hoje teço no teu peito indizíveis naufrágios: não para morrer / Mas para ser salva de pretéritas e futuras solidões.

Poesia de coragem, pois. E de aposta consumada contra os limites impostos. Contra toda a lógica, apesar “da noite que se lhe enrosca na cintura e lhe move um cerco”. Poesia de autenticidade, de ser-se o que se sente ser, de estar onde se sente estar; poesia de fidelidade ao Eu, de afirmação: hei-de sobreviver ao meu próprio caos.

De onde vem esta força, esta certeza? De onde chega sem o ecoar dos passos nas vielas escuras, o dom de resistir ao poema submerso? É simples, está na reinvenção desse país longínquo de uma utopia transcendente que se relata no poema 15 de “Reino da Lua”: Existe, sim, um continente soalheiro, ao alcance / do mais íntimo pressentimento da vida, onde, em asas / de gaivota, nascem os homens reconciliados com a morte.

É tão grande a força da Palavra poética! Tão lenta, à sua sombra lustral, a progressão da cinza, do escorbuto, dos vermes, e tão consolador o desespero dos ossos ávidos pelo exílio sob a terra! É que esta poesia de Graça Pires suspende o tempo, eis a verdade, basta ler. Já não como era outrora quando as mulheres, no circular gesto de disfarçar desejos / com astúcia […] esquecem […] os sonhos intranquilos e passam a levantar-se antes do sol / nascer: para preparar o inverno, pensa toda a gente.

É tão incomensurável o dom da palavra poética! Ata-nos esta poesia como se nada pudesse alterar o percurso de uma paixão. De vez em quando o rigor da estação apruma-se, a visibilidade esmorece ante os círculos concêntricos dos pássaros no céu das insónias – some-se a força, os braços caem, a testa tomba sobre os joelhos, a poetisa olha e sente: O Outono entra-me pela casa, e a pergunta magoa-lhe a penumbra do rosto: onde estão os pássaros de olhos aguados, que sobrevoavam / ainda há pouco, as minhas mãos?

E logo adiante revela o seu temor: Tão inesperado como um assombro, um coro de tragédia / urde, em meu peito, a travessia da noite.

Mas o caos recompõe-se, a ameaça de naufrágio dispersa-se com o espargir dos cabelos. Basta que a menina volte de novo / e se reparta em íntimos silêncios. A poetisa reencontra o outro, os outros, reencontrando-se, os passos alcançam a “direcção do vento” e preparam-se para prosseguir: Agora, nas margens da lua cheia, há uma mulher, / em cujo rosto se passeia o lado mais claro da noite.

Vimos falando de um livro raro: há poucos livros assim. A arte de falar de nós evitando os escolhos que à poesia recusam, normalmente, o fascínio e o dom da assombração. Vimos falando de um livro impossível de calar, ou de remeter ao esquecimento. Vimos falando de Graça Pires, rainha “solar” de “Reino da Lua”, pátria onde as acácias incendiaram as ruas, roteiro de uma cronologia, voz de percurso melodioso.

Graça Pires: agente de uma alquimia subtil, de um concerto harmónico gerido pelo coração, demiurga de uma humanidade celebrada, verbo de uma causa cheia de combates, travessias, de horas plenas, de noites inconsúteis, imaculadas e fecundas: Repara como nos emocionamos com a vida / e, em segredo, nos olhamos sem qualquer pudor. / Repara.

Repara.

 

Nuno de Figueiredo, poeta

“Entre Letras: Livros e Escritores”, maio de 2003







 

Em raros momentos senti a alma latejar tão intensamente como agora, ao ler o belo livro que tenho nas mãos: REINO DA LUA, do poeta portuguesa Graça Pires. A poesia de [Graça] Pires, verdadeiramente, encarna-se na graça poética do instante, iluminação súbita a nos prodigalizar os horizontes, a derrubar os muros da insensibilidade, palavra a pulsar juntamente com o coração do leitor, a tal ponto que não sabemos se, ao lermos a sua poesia, o sussurrar de cada sílaba é o próprio fluir da leitura ou pulsar de nossas veias… Graça Pires ressuscita em seus leitores a melancolia da infância, os tristes quintais do nosso passado, os resíduos invisíveis de nossos eus antigos:


Encosto a cara às quimeras da infância,
para exorcizar a inocência perdida
e rodopiar, sobre os sonhos, a valsa
solitária da criança que fui, 
enquanto as minhas mão, nativas
de sol, eram aves de múltiplas cores.
Paro todos os relógios, para escutar 
a respiração dos dias.
E como um actor que se esgota na personagem, 
rasgo o cenário e danço, como um louco, 
em redor dos malogros
entrelaçados nos meus pulsos. 
Tenho, em volta do pescoço,
uma lua transparente 
que me enrouquece a voz.

 

Esta poesia banha-se no noturno, nas profundezas abissais do luar, a fim de resgatar vivências espirituais de plenitude. É na noite que Graça encontra sua manhã, sua palavra de leveza e densidade. Das trevas, essa poeta tece seu encanto solarizado, rendilhado de iluminuras, de alegrias súbitas. Em cada poema, o leitor descobre uma epifania, uma revelação.

 

No encalço de pequenas alegrias, 

faço do corpo um barco.

Amarro-o nas margens do silêncio 

e divago, com urgência,

por dentro de um impulso incontrolado.

 

Tomo em meus olhos a transparência dos teus.

Quero sentir a tua noite a rondar-me o sangue,

quando dizemos: é tempo de acender o fogo.

Quero conhecer a excessiva inclinação da luz,

quando, desarmado, o coração, 

aguarda que aconteça

aquele fascínio de garotos, 

à espera da festa prometida.

 

Esses garotos somos nós, seus leitores, sempre na iminência, a cada palavra de Graça, de uma festa múltipla, adolescente. A magia de Graça reside na sutil combinação lexical, dulcíssima em vários momentos, combinação essa integrada a uma emoção sutil, arrebatada, sentir delicado a se espraiar em uma musicalidade de finas notas e tons. A grande poesia é, antes de tudo, um mergulho no mais profundo que há no homem, no mais pungente que existe no coração da vida. E Graça não teme esse tombo nas profundezas da existência, queda típica que caracteriza a pulsão vital dos poetas místicos, videntes, mágicos. A memória irriga as palavras da poeta, abrindo um universo de sutilezas, biografia universal do humano:

 

O meu retrato de criança vai-se cobrindo de pó.

Nada me pertence, salvo a memória de trilhos

luminosos nas encostas da noite. A lua entra-me,

inteira, na garganta, rompe-me o peito deles a lés

e sublinha, a cores, uma errância inscrita no destino.

 

Quem foi que ousou apagar, de meus pés, os traços

de impossíveis aventuras, e me deixou, na pele,

tamanha rebeldia? Enterro os dedos em dunas

de areias assombradas que me sufocam a alma,

até à dor, porque trago, na boca, um imenso

deserto traçado a sede.

 

Essa alquimia verbal faz-nos lembrar, em alguns instantes, das imagens belas de António Ramos Rosa, poeta imenso, ainda muito pouco conhecido no Brasil. Graça Pires, ao nos revelar a dor, o sofrimento, com sua palavra de sopros e levezas, mostra-nos também o sortilégio da poesia: a palavra lírica leva-nos à dor, mas a uma dor em estado de alegria. A poesia intensifica todas as nossas sensações, a nossa sensibilidade ante o mundo, a tal ponto, que o real nos arde, nos dardeja, nos fere. Todavia, tal sofrimento vem sempre embalado pelo bálsamo da palavra poética, cântico a transmutar a cicatriz, em bailado, em voo. Para encerrar esse breve passeio por esse universo de alumbramentos, encerro esse breve comentário como esse poema cheio de Graça:

 

Houve um ano em que as andorinhas se esqueceram de partir.

Comovidos, os deuses adiaram o começo do inverno.

Nesse ano, uma mulher e um homem se fundiram em barco

feito ao vento e partiram sem rumo e sem dar notícias:

como se fora de cinza o nome que usaram.

Agora, nenhum horário retarda o êxodo

das últimas andorinhas em direcção ao sol.


Diz-me, meu amor, onde se cruza a tua sombra com a minha.

Diz-me em que crónica de espanto te tornaste o marinheiro

que debandou ao encontro do deslumbramento das manhãs.

 

E ao encontro das manhãs também seguimos nós, por essa vereda de pura poesia.

 

Alexandre Bonafim, poeta e professor de literatura portuguesa

Blogue “Arqueologia dois Acasos”, 25 agosto 2006


CONJUGAR AFECTOS

 



Conjugar afectos. Lisboa: Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997


Graça,

Gostei muito do seu modo de “Conjugar afectos”.

Mais de uns poemas do que doutros, o que é natural. Quanto mais espontâneos e simples mais me agradaram. Algumas vezes senti que você procurou fórmulas (ou palavras) um pouco rebuscadas, que retiraram fluidez e até sentido poético a alguns textos.

Julgo ter descoberto a procura inquieta (e indomável?) da plenitude, que poderá eventualmente só através de um grande amor ser atingida.

 

“Porém um dia, avistaremos ilhas de búzios coloridos

que os mapas não referem”. (p. 33)

 

É gratificante encontrar uma presença tão forte de erotismo, não exibido, mas revelado com sensibilidade.

 

“Diz-me palavras insensatas, para que eu percorra os segredos escondidos no silêncio da tua voz.

O teu corpo húmido aviso dos meus sentidos

os teus olhos atónitos com o júbilo dos meus” (p. 7)

 

 

“Amo-te como no tempo em que o meu corpo era uma ilha

e nenhuma palavra me parecia intrusa dentro da tua boca “(p. 16)

 

“Pergunto por ti com raízes de ervas doces presas nos dentes” …

 

“Que tumulto estilhaçou a minha vontade, quando o teu braço contornou a sombra do meu corpo” (p. 11).

 

Gostei igualmente do poema da p. 4.

O poema da p. 22 “Um homem desertou da hipótese de amar" parece-me dos mais conseguidos. Você consegue aqui evitar o recurso a tudo o que esteja a mais. É uma pequena maravilha.

[…] Não sendo poeta, aí vai um pouco de René Char, um dos meus autores favoritos:

“Un poète doit laisser des traces de son passage,

non des preuves. Seules les traces font rêver”.

 

Manuel Fazenda Lourenço

Carta manuscrita, 28 de fevereiro de 1993








 

O livro vencedor deste prémio [Grande Prémio Literário do 1º Ciclo Cultural Bancário], intitulado “Conjugar Afectos”, é o resultado de uma já apurada experiência poética por parte da autora.

O presente livro revela, para além da capacidade poética, a capacidade de conjugar o afecto com a palavra. É a palavra do afecto, é uma constante questionação do mundo e da vida entre os homens, é uma grande paixão de viver, elementos constantes ao longo das cem páginas deste livro, onde não há uma quebra de unidade, onde o leitor encontra o ritmo exigido a toda  a  grande poesia. 

Em suma, é um livro que, pela sua qualidade interior, só poderia ganhar um prémio literário. Estamos certos de que a autora ainda tem muito para nos dar, bem como à poesia portuguesa.

Palavras do júri do prémio, 2 de novembro de 1996








Conheci Graça Pires, há uns anos atrás, quando ambos nos encontrámos no Barreiro para receber um pequeno prémio literário que nos coubera. Voltei a encontrá-la tempos depois, em Torres Novas, desta vez como espectador numa cerimónia que lhe granjeara novo “pequeno” prémio. E, mais tarde, em Vila Nogueira de Azeitão quando a poetisa foi distinguida com o Prémio Nacional Sebastião da Gama. Foi sobretudo aí que me dei conta da belíssima poesia de Graça Pires.

Quando se levantou a hipótese (que muito me honra) de ser eu a prefaciar esta sua nova obra, lembro-me de, telefonicamente, a esclarecer ser minha pretensão falar mais das emoções da (sua) poesia do que embrenhar-me pelos escarpados da teoria e da técnica, da escola, do grupo os das “matemáticas” que também concernem a qualquer obra poética.

Portugal é um país de poetas, proclama-se. Será. De bons e de maus poetas, naturalmente. Graça Pires, sem dúvida, faz parte do grupo dos primeiros. Mas quem os escuta, aos poetas? Quem os lê? Quem sabe que existem? Quem os dá a conhecer?

Escrever poesia em Portugal é uma aventura arriscada e traiçoeira. Publicar poesia em Portugal é empresa duplamente ousada, traiçoeira e atraiçoada. Se houvesse possibilidades de inquirir, um a um, os dez milhões de habitantes deste país sobre o nome dum poeta contemporâneo que alguma vez houvessem lido creio bem que noventa por cento não teria qualquer resposta para dar. O círculo é vicioso e a excepção não faz a regra. Em que escolas do Ensino Básico se esclarecemos alunos de que há poetas e poesia? Quantos professores do Preparatório ou do Secundário (deixemos de lado, as tais, tão pequenas e honrosas excepções) alguma vez mencionaram o nome de obra ou de autor de poesia? É uma verdade cruel? É, sim senhor. E tanto mais quanto se diz que as pátrias e os povos se fazem da memória e da poesia dos seus filhos.

As raras editoras que ainda hoje se aventuram à publicação de qualquer livro de poesia pressentem de antemão o risco que correm. Afora alguns casos isolados (de autores ou editores) o fracasso mora a um passo das boas intenções. Onde e como encontrar quem leia, quem leia poesia? Como achar agulha num palheiro de “ignorância”, despudoradamente cultivada, de “indiferentismo” publicamente assumido, de “vazio” (às vezes forçadamente, às vezes ingenuamente) premeditado? Como assumirmos, todos, as culpas de, num país de poetas, nem mesmo os poetas se conhecerem uns aos outros?

Os raros jornais ou revistas que ainda vão teimando numa página literária fazem as recensões, que não agradecem e silenciam. (Repetimos: há excepções, mas tão passadas à peneira!). Silenciam e agridem pela usurpação da voz. O terrorismo da omissão é, porventura, o mais cruel e sofisticado inimigo da poesia e do poeta. Os sórdidos esquecimentos perpetrados por quem devia dar a conhecer e cala (consciente ou inconscientemente, não é isso que importa) talvez acabe por dar lugar a reparações que o tempo, mais tarde ou mais cedo, acabe por impor a si mesmo. Mas teremos, nós e os poetas, de estar condenados a um lendário paraíso (palavras da autora) onde hoje quase só habitam os deuses do efémero?

Mas pronto, falemos de coisas belas. Falemos agora da poesia de Graça Pires.

A propósito do último livro de Graça Pires “Ortografia do olhar”, escreveu Urbano Tavares Rodrigues: «Graça Pires tem a sensibilidade fina e original, por vezes a amargura, de uma Sylvia-Plath, aliada a um rigor e contensão que dão à sua poesia o necessário equilíbrio. Pela beleza depurada da sua imagética, pela tonalidade melancólica, pelo tratamento profundo de “grandes temas”, como o tempo e o amor, este livro vai decerto contribuir para a plena afirmação do seu talento».

Creio que o mesmo diria o reputado escritor desta magnífica obra, “CONJUGAR AFECTOS”. A poesia depura-se com as emoções e o invés. “O nervo afectuoso das palavras” está presente quando “um pássaro verde nos nasce no peito / para antecipar a esperança”. É desse afecto recíproco entre as palavras e quem as dita (entre o sentir e o fazer delas a sua anunciação e a sua proclamação) que a poesia de Graça Pires surge, melancólica umas vezes, nostálgica outras, “excessiva como as paixões” as demais. Há uma ponte levadiça na escrita da autora, entre o passado e o presente-futuro que lhe (nos) coube. Intemporal talvez, cerrada na névoa do que é apenas adivinhável, pressentida tão-só pelo halo misterioso que ordena e comanda as comoções, mas ela (a ponte, a montanha mágica) está ali. “Se quiserem saber de mim podem procurar-me no deserto”, diz a certo passo a autora. Poderia tê-lo dito doutra forma: «Se quiserem saber da minha poesia, procurem-na no afecto com que me (a) conjugo». “Levemente inquietas, levemente acesas, levemente inocentes” as palavras indiciam, catalogam, absorvem-se, assumem o que há de intemporal no duplo acto da criação-recriação de que é feita a obra poética. Tal como em “ORTOGRAFIA DO OLHAR” este livro é também uma peregrinação da memória, do captar da luz e do esfiar das comoções. Não sei se anterior ou posterior, porque “mais perto da infância, anda no ar / uma nova relação com a felicidade”. É nesse instante preciso que, no fundo conta. Esse “sempre mais perto “(da infância, da memória e das nostalgias dela) que Graça Pires capta na máquina fotográfica dos seus sentimentos. Esse, afinal, momento único, de afectos e pronunciamento deles que se estabelece entre a mão (o sentir) e a escrita, entre o acolhedor dela (o leitor) e a emoção que lhe sobrevém.

A ligação entre os poemas de “CONJUGAR AFECTOS” não se faz creio-o, pelo tempo que transcorreu entre uns e outros, mas pela ordem mágica que as lembranças (melhor: as nostalgias que povoam as lembranças) lhe requerem. É por isso que, ainda que sem título individualizado, estes poemas se acertam, se ajustam e são parte integrante do corpo total da própria poesia. “De rosto em rosto a caligrafia do amor / implorou a memória das palavras encantadas”; ou “Habito a deriva dos labirintos / com vontade de ser cativa de uma presença / de um nome, de um aceno”; ou ainda “Ninguém me diga o caminho onde se equivalem/ os dias e as noites de um roteiro de verão”, e são versos escolhidos ao acaso para proclamar que é preciso “deixar passar o poema, ansioso da rua larga” da cidade onde as palavras são o testemunho-primeiro duma poesia (dum poeta) cuja “boca se legenda de contos de fadas”.

“CONJUGAR AFECTOS” é, já se disse atrás, um belíssimo livro da melhor poesia. É, aqui, que nos reportaríamos à primeira parte desta análise: para ficar como lembrança ou como esquecimento? Para ser fruído por quem tiver a possibilidade de o ler ou omitido por quem devia mostrá-lo à luz? Para deixar que seja “afecto” ou exclusão dele? Oxalá que pelo menos quede “no lugar em que os rios se cruzam/ com os olhos dos poetas”.


Hugo Santos, poeta

Na apresentação do livro, 28 de novembro de 1997


LABIRINTOS

 


Labirintos. Murça: Câmara Municipal, 1997


[…] Julgo que não devo errar muito se disser que um dos segredos deste livro agora premiado consiste na intuição hábil com que a autora procurou adaptar o mito cretense do Minotauro, monstro que foi encarcerado no Labirinto e mais tarde morto por Teseu com a ajuda do novelo de fio fornecido pela sua amada Ariadne, a alguns aspectos existenciais e sociais da vida moderna. Graça Pires chega a um paralelismo estreito entre esse monstro insaciado que foi o Minotauro e a avidez sem escrúpulos do consumismo actual, como poeticamente se exprime, por exemplo na p. 14. Às vezes os seus versos têm o sabor de uma máxima:

 

A sociedade de consumo manipula-nos.

Tornámo-nos culpados dos equívocos

da ruína, do nosso próprio envelhecer…

 

É por isso que na mesma página apela a que “excomunguemos os deuses infalíveis” que podem bem ser os novos teólogos do neoliberalismo do mercado. O modo que a nossa poeta nos sugere para que nos libertemos das labirínticas presas modernas é precisamente o esforço que cada um de nós deve fazer para encontrar, dentro ou fora de si, aqueles fios (diríamos aquelas atitudes ou condições…) que nos conduzirão à saída do labirinto da vida actual; este livro é bem o resultado desse esforço. No caso da autora, os fios são estes versos, como diz na página 36:

 

Nos meus dedos cintilam longuíssimos fios

de um novelo de versos e de sonhos

com que me quero salvar.

  

Lembremos, principalmente àqueles que estão alheados do contexto epocal donde se originou o mito do Minotauro, que este pertence a um reinado (o de Minos) que em muitos aspectos favoreceu um modelo de sociedade perfeita ou quase… Quem me está a ouvir concordará que estamos a uma enorme distância dessa (ou doutra) perfeição social e humana… E uma das maneiras de nos salvarmos será resistir “ao frio programado a rodear-nos o pescoço” conforme nos desabafa a poeta na p. 15.

A poesia foi sempre, por uma via ou por outra, formas singulares de balões de oxigénio, de alerta, de resistência. Mesmo sem aquela típica carga ideológica de décadas atrás.

“Não existimos para consentir/ frases inúteis em torno dos dias” 

escreve Graça Pires na p. 14. Espero, esperamos que não seja inútil a leitura deste livro premiado, como o modo como cada leitor irá pô-lo em prática no quotidiano que lhe cabe viver. […]

 

Francisco Martins

Na entrega do Concurso Nacional de Poesia Fernão de Magalhães Gonçalves, 1997







A PALAVRA POÉTICA:  RITUAL, CRIAÇÃO E EXORCISMO

O presente volume de poesia de Graça Pires toma como primeiro ponto de referência o Labirinto de Creta, sobre o qual decalca os múltiplos labirintos interiores que atravessam os textos e que os textos atravessam. Construído no diálogo com o mito e os seus protagonistas, o livro joga com duas formas distintas de os convocar, o que faz, nuns casos, pela referência directa, noutros pela activação de mecanismos de natureza analógica, desencadeadores de processos de identificação. A relação do sujeito poético com o mito antigo matiza-se, portanto, e obedece, umas vezes, à simples evocação, outras, à assunção de um inesperado protagonismo, noutras ainda, ao puro exercício da metáfora, levando a que o jogo da enunciação envolva a voz de alguém que ora surge implicado no que regista (“eu”, “nós”), ora ausente, tornado mero espectador de uma acção que lhe é estranha ou de que se alheia (“ele”, “eles).

Nos trinta e quatro poemas que o constituem, o livro aparece como percurso através do imenso labirinto desenhado pelo cepticismo em relação ao mundo – um mundo de “falsos profetas” e “interditos anjos” (p. 28), limitado pelas “convenções quotidianas” (p. 25), manipulador, “computorizado” (p. 15) -, pela decepção em relação ao amor – “já não és senão o falso alarme do meu corpo”, “penso no amor / como se de uma fraude se tratasse” (p. 23) -, pela nostalgia em relação à perdida harmonia original, estivesse ela ligada à vivência feliz da infância – “A mãe: o colo côncavo de afectos. / Labirinto alagado de ternura / no alvoroço da memória” (p. 6) – ou à capacidade individual de conhecer e designar - “Hoje sei que nunca se repetirá a intacta perfeição / da primeira palavra com que nomeei a vida” (p. 10). Desse dédalo complexo e plural como que o sujeito intimamente se defronta apenas a palavra pode ser chave, veículo de libertação: dizer é, aqui, tomar consciência e a consciência é condição sine qua non da ultrapassagem das barreiras erguidas no caminho. Ler o livro, tal como escrevê-lo, é encontrar a saída do labirinto, depois de descobrir a ambivalência que o caracteriza enquanto lugar de prova e, simultaneamente, de revelação de uma personalidade. Redentora, a palavra permite a transmutação do medo em sonho e por isso exercitá-la é esconjurar fantasmas e adquirir a confiança indispensável à auto-afirmação.

O volume começa com um poema ordenado em torno de um rito de morte abrindo para a vida: da contradição entre o “fogo funerário” e a possibilidade de “tornar vivo “o gesto criador dos deuses” (p. 2) emerge a aproximação da palavra poética ao sagrado, graças ao ritual e à magia que se volvem criação. Logo em seguida (p. 3), a evocação de um percurso afectivo individual é metaforizada pelo texto, ele próprio labirinto que atemoriza, mas onde é possível encontrar pontos de referência: as letras, os vocábulos. Com base neles se processa todo o investimento subjectivo posterior, materializado nos versos dos poemas que se vão sucedendo e deixando entrever, por entre hesitações e ocasionais recuos, o avanço em direcção à luz, à liberdade, à redenção. O exercício da escrita identifica-se com a íntima viagem do sujeito em construção: para cumprir a “interior travessia do sentimento”, há que “sulcar a página” e descobrir que o “labirinto dos versos” é feito das “sílabas de um sonho” (p. 12).Esta descoberta é tanto mais significativa quanto é certo que constitui o suporte sobre o qual se edifica a superação das contradições que habitam esse ser que sempre tende a oscilar entre os polos negativo e positivo da própria existência a coberto da máscara “com que [se] desfigur[a] e transfigur[a]” (p. 11) -, que quase sucumbe ao desespero, à indiferença, à violência muda, mas nem por isso deixa de secretamente acreditar  no poder regenerador do amor e da sensualidade, na fraternidade, na capacidade de revolta contra a anulação e a rotina. E assim, no termo da viagem, esse “eu” que a si mesmo se busca, que uma vez mais ritualiza a poesia, ao percorrer “os fonemas como se dançasse”, e em cujos dedos “cintilam longuíssimos fios / de um novelo de versos e sonhos” (p. 36), descobre-se enfim Ariadne, dividida entre o espanto e a confiança, no limiar de uma harmonia reencontrada.

 

Professora Doutora Cristina Almeida Ribeiro

(escrito para ser o prefácio do livro, que não foi possível incluir).








A voz plural como o silêncio 

Quem quiser contactar com o que melhor se vai fazendo na novíssima poesia valerá a pena ir prestando atenção aos volumes que resultam de concursos promovidos por algumas autarquias. Um bom exemplo é o Concurso Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves, da Câmara Municipal de Murça, em homenagem a um poeta mais do que prezável, desaparecido em 1988. A vencedora da segunda edição daquele galardão foi Graça Pires com o livro “Labirintos”, o quarto título desta autora, natural da Figueira da Foz. O eixo do livro é o mito de Ariadne e Teseu – o herói grego que matou o Minotauro, senhor do labirinto de Creta -, que a autora transporta para o universo da própria linguagem (o fio de Ariadne é «uma cadeia de vocábulos no labirinto do texto») e da criação poética. Aliás, o poema de abertura é programático na medida em que se pretende «tornar vivo dentro das palavras / o gesto criador dos deuses». Graça Pires remete o leitor para um espaço em que dizer é agir, a palavra reinstaura-se como performativa, mágica, um acto de religação - «dir-se-ia ser a palavra o cordão umbilical / que põe em uníssono as mãos e os gestos /, rumo à urgência de um tempo de absolvição». Graça Pires explora ainda de outra forma as potencialidades simbólicas das personagens gregas. «Parecia imortal o Minotauro. / Um homem e uma mulher o debelaram»: talvez não seja demasiado forçado entreler aqui uma referência, não tanto a Teseu e Ariadne, mas a Adão e Eva capazes de triunfar sobre o mal, num regresso ao paraíso numa conquista do «tempo de absolvição», atrás referido. Aliás os versos seguintes definem um cenário genesíaco e eufórico - «um fio de fogo a iluminar-lhes / os corpos: terra virgem irrigada de volúpia / ou bando de pássaros no topo da língua / reacendendo a noite na alquimia das sombras». Um outro labirinto em que o texto se embrenha é o da memória - «As paredes repletas de lembranças. / A mãe: o colo côncavo de afectos. / Labirinto alagado de ternura / no alvoroço da memória» e também o dédalo da vida urbana, das tecnologias e rotinas desumanizantes - «Multidão anónima, individual, insondável. / Geografia de uma orfandade interior. / Paradoxal destino de aves migratórias». A viagem pelos labirintos prossegue até coincidir com o próprio sujeito e as suas emoções - «Mudo as regras do jogo sem avisar ninguém»; «E a minha voz tornou-se tão plural como o silêncio». Depois de «Poemas» (1990), «Outono: lugar frágil» (1994), «Ortografia do olhar» (1996) Graça Pires continua o seu percurso na linha de Sophia de Mello Breyner (aliás presente no livro através de uma epígrafe de «O Nome das Coisas», talvez de uma forma menos solar. […]

 

Nuno Morais








Entre labirintos 

“As conchas. / Saberemos um dia como são frágeis. / Sabem de cor os cascos dos navios. / Confundem-se com as mãos, na maré-baixa. / Pressentem o fim do verão / pelo morrer dos peixes no labirinto dos corais. / Entre âncoras e algas navegam. / Tão leves, que o vento se perturba”, da poesia de Graça Pires. “As conchas”.

E foi com poemas como este que Graça pires se sagrou vencedora absoluta do II Concurso Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves que a Câmara Municipal de Murça patrocina, editando a obra vencedora.

De seu nome “Labirintos”, sob este título se reúnem poemas que nos falam de saberes terrenos a pretexto de deuses que pretendemos no Olimpo… “Contemporâneo dos deuses é o poeta” ou “Há falsos profetas a levante do destino” são apenas dois títulos felizes de uma série de poemas inspirados.

 

“Correio da Manhã”, 8 janeiro de 1998